Crossfade Ensemble

Daniel Bernardes: “Crossfade Ensemble” (MPMP)

MPMP

António Branco

“Crossfade” é um termo técnico utilizado habitualmente na edição sonora e que designa a colagem de dois “takes”. Aqui, é utilizado como metáfora para a mistura da linguagem do jazz contemporâneo com a música de câmara do universo erudito. Nomeia também o septeto que o pianista e compositor Daniel Bernardes (n. 1986) reuniu para interpretar o conjunto de peças incluídas no sucessor do aclamado “Liturgy of the Birds” (Clean Feed), disco de tributo a Olivier Messiaen que figurou no topo das listas dos melhores de 2019.

Neste novo registo, com chancela do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa – a celebrar uma década de relevantíssima atividade e que por este motivo decidiu apostar numa edição especial em vinil –, o músico de Alcobaça volta a exibir os predicados que há muito lhe reconhecemos enquanto compositor de horizontes amplos.

As peças reunidas são o resultado de várias encomendas que foi recebendo ao longo do tempo para diferentes formações, como o Pulsat Percussion Group e o Moscow Piano Quartet, entre outras. E não foi apenas o catálogo de obras que aumentou: foi igualmente a vontade de unificar esse material acumulado num só projeto. «Durante meses reescrevi todo o repertório e nesse processo ficaram claros para mim não só a formação que precisava, mas também os músicos que tocariam esta música», diz Daniel Bernardes à jazz.pt.

Continua a ser neste interface entre o jazz e a música erudita contemporânea que o músico encontra território fértil para a criatividade, rumo que a realidade se encarregou de apontar: «O caminho estético percorrido nunca foi uma decisão, foi acontecendo e, dessa forma, é uma forma de estar muito natural para mim pessoalmente.» Bernardes admite que tal opção pode condicionar a escolha dos músicos que o acompanham: «Digamos que tendencialmente estou um pouco agarrado a partituras e a uma certa especificidade de escrita e há músicos para quem esta forma de estar não é a mais natural», acrescenta.

O grupo inclui nomes mais ligados à esfera do jazz – Ricardo Toscano, Jeffery Davis e João Barradas –, à música erudita – o saxofonista Mário Marques e o trombonista Hugo Assunção – e quem jogue com igual proficiência em ambos os tabuleiros, como o próprio líder e o tubista Sérgio Carolino. Daniel Bernardes, que já trabalhara com todos eles noutros contextos, assume uma postura “ellingtoniana” na forma como gere o xadrez instrumental que tem à disposição, em que mais do que o timbre importa o músico que o toca. «Não escrevo para um instrumento, escrevo para os músicos», realça.

A música que escutamos equilibra o mais minucioso rigor composicional com a liberdade da improvisação, espelhando uma diversidade de referências que só uma formação desta natureza poderia abraçar. Bernardes confessa que foi com expetativa que antecipou a forma como estes músicos – com percursos e experiências tão díspares – trabalhariam entre si música que por vezes é improvisada e aberta, outras detalhadamente escrita: «Não me é natural uma postura de autoritarismo e de definir claramente todas as regras do jogo para toda a gente e esta música tem esse espaço, os improvisadores improvisam e têm o espaço para a sua criação no momento, a sua espontaneidade, e os músicos clássicos a sua procura pelo timbre de grupo, uma atenção ao fraseado. Enfim, foi mesmo a exploração do melhor de dois mundos.»

O disco abre com “In Memoriam Bernardo Sassetti”, peça escrita em 2012 durante o período de luto, riquíssima do ponto de vista da construção melódica, com o piano no centro de tudo e notáveis intervenções de Davis e Barradas, acentuando a carga lamentosa, em forma de agradecimento.

“Ostinato, Interlúdio e Canção” foi a primeira de um ciclo de peças que escreveu para diversas formações (são outros exemplos a peça V, que surge em “Liturgy of the Birds” ou a peça IX, para a Orquestra Jazz de Matosinhos). É introduzida pelo registo grave da tuba de Carolino (o “ostinato”). Segue-se uma secção mais lenta e respirada, de grande lirismo (o “interlúdio”). O piano parece aqui aproximar-se de domínios mais jazzísticos, surpreendendo a cada instante, criando com o vibrafone o suporte para os sopros e o acordeão interagirem vividamente. Tudo para e o piano (e acordeão) demandam numa bela jornada (a “canção”). O “tutti” reagrupa-se para um final luminoso, de que emerge um superlativo solo de Ricardo Toscano.

Seccionada em três andamentos, “Imagens da Minha Terra” (obra encomendada em 2013 pelo Festival Cistermúsica) constitui um regresso às origens e outro exemplo da forma sagaz como o compositor tira partido das possibilidades da paleta tímbrica em presença. A primeira parte da suíte, “Noite”, é tranquilamente introduzida por piano, vibrafone e tuba, que erguem o suporte para sopros e acordeão. João Barradas assina um belo solo; Toscano pega no motivo e não lhe fica atrás, levando a ideia melódica para territórios povoados pela tradição jazzística. Memórias resgatadas do saudoso Parlatório Café, espaço alcobacense já encerrado, que o pianista carinhosamente apelida de “Hot Clube do Oeste”, onde viu muitos concertos e tocou em diversas ocasiões. Da segunda parte, “Escola”, emana a nostalgia da infância, um estado de profunda serenidade transmitido pelas notas cristalinas do piano acolitadas pelo vibrafone em estado de graça, a elevar a melodia a uma dimensão etérea. De início mais agitado, o andamento derradeiro, “Mosteiro”, reflete a «imponência indiferente face à espuma dos dias» (Bernardes dixit), com os instrumentos a desenvolverem figuras que gravitam em torno do discurso pianístico, desembocando num final épico.

Estamos perante reiterada confirmação, se necessária fosse, do lugar que Daniel Bernardes merecidamente ocupa entre os mais significativos compositores nacionais dos nossos dias.

  • Crossfade Ensemble

    Crossfade Ensemble (MPMP)

    Daniel Bernardes

    Daniel Bernardes (piano, composição); Mário Marques (saxofone tenor); Ricardo Toscano (saxofone alto, clarinete); Hugo Assunção (trombone); João Barradas (acordeão); Sérgio Carolino (tuba); Jeffery Davis (percussão)