Ziv Taubenfeld: “Full Sun” (Multikulti Project)

Rui Eduardo Paes

De origem israelita, mas radicado na Holanda, o clarinetista baixo Ziv Taubenfeld reúne neste disco de homenagem a John Tchicai, Jemeel Moondoc e Sunny Murray a nata da cena de Amesterdão e quem por ela tem passado (Michael Moore, Joost Buis, Shay Hazan, Nicolas Chientaroli, Onno Govaert e também o português Luís Vicente). Os quatro temas (um deles, “Forest Weather”, em duas partes, e daí as cinco faixas do CD) de “Full Sun” são um misto de situações composicionais: partituras gráficas (definindo não só os esqueletos como também os uníssonos e contrapontos melódicos) e improvisações conduzidas ou deixadas acontecer (a maior parte do que vamos ouvindo) transportam-nos numa viagem em que a história do avant-jazz é celebrada por meio de um sincretismo de referências que, em vez de reproduzir modelos, procura explorá-los com uma perspectiva de abertura de caminhos.

Taubenfeld foi aluno de Michael Moore, e o facto de o músico norte-americano há muitas décadas radicado na Holanda estar no seu septeto tem uma relevância que importa assinalar: esta complexa e intrincada música resulta, mesmo que indirectamente, de uma cumplicidade entre pupilo e mestre. Outro significado especial encontramos no espaço que é dado ao trompete de Vicente, denotando a importância conquistada fora de portas pelo músico de Lisboa. A audição deste álbum é particularmente intrigante, sendo impossível distinguir nas tramas uma linha de separação entre o que vem do património jazz e o que a partir deste se cria de novo. Passado e futuro diluem-se numa abordagem do presente, com a alusão do poema que inspira a obra à cultura natufiana do epipaleolítico («12 thousand years ago / a natufian took a nap / climbed into the cave like every other day / falling asleep with the sun») funcionando metafórica ou simbolicamente como matriz de uma aguda noção de contemporaneidade.