Yedo Gibson / Pawel Doskocz with Andrew Lisle & Vasco Furtado: “004” (Spontaneous Live Series)

Rui Eduardo Paes

E eis mais um lançamento demonstrativo do interesse polaco pela improvisação de matriz jazz que se pratica em Portugal, ainda que, neste caso, de forma menos directa. São dois os músicos com residência portuguesa que se juntam ao guitarrista Pawel Doskocz neste quarto volume da Spontaneous Live Series: o saxofonista brasileiro Yedo Gibson, radicado no concelho de Sintra, e o baterista lisboeta Vasco Furtado, que surge como convidado nas três últimas faixas. O quarto participante faz-se ouvir nas três primeiras improvisações, o inglês Andrew Lisle, igualmente na bateria e também ele com ligações à cena lusitana durante os anos em que viveu em Lisboa, tendo tocado com, por exemplo, Rodrigo Pinheiro, Hernâni Faustino, Rodrigo Amado e Luís Lopes. O que os dois trios fazem nestes registos realizados nas edições de 2018 e 2019 do Spontaneous Music Festival no Dragon Social Club de Poznan, é particularmente explosivo – mesmo quando a energia entregue acaba por dissolver ou desagregar os elementos momentos antes colocados de pé.

O que aqui vem é um exemplo da melhor – da mais imaginativa e mais desalinhada com as fórmulas em vigor, entenda-se – improvisação que se vai tocando por estes dias, depressa entusiasmando quem ouve. O estilo guitarrístico de Doskocz é o factor disruptivo das construções, tanto nos remetendo para a distorção do metal e para a electroacústica experimental, mas lembrando uma ou outra vez, entre tais referências, as explorações instrumentais de um Robert Fripp. Esses parâmetros fazem com que Gibson (que é, decididamente, um dos mais cativantes sopradores da actualidade) mostre desde o primeiro momento os muitos recursos criativos de que dispõe, indo desde a tradição do free jazz – a específica do saxofone soprano – às técnicas extensivas da improv “new school”. O mais curioso de “004” é verificar o quanto os bateristas associados influenciam os rumos que se tomam: se Lisle é mais expansivo e tem um entendimento de marcação do que vai acontecendo, Furtado caracteriza-se pela meticulosidade das suas contribuições (repare-se no trabalho desenvolvido nos pratos em “IV”), combinando texturalismo e ritmo em iguais medidas. Um CD a não perder.