Chão Vermelho

Joana Guerra: “Chão Vermelho” (Miasmah Recordings)

Miasmah Recordings

Rui Eduardo Paes

Disco a disco, ano a ano, o nome de Joana Guerra tem vingado como uma referência da qualidade e do carácter inovador da música criativa portuguesa, e seja na cena da improvisação livre como naquele que, com as suas composições – umas instrumentais, outras por si própria cantadas, todas impossíveis de catalogar em termos de género ou estilo, pois os elementos camerísticos, “folky” e experimentais vão-se sobrepondo e confundindo –, ocupa com uma singularidade que a distingue de tudo o que ouvimos, por cá e lá fora. Este novo álbum, “Chão Vermelho”, é o da sua definitiva afirmação, o disco da maturidade de um projecto em que tudo o que estava antes potenciado encontra finalmente plena expressão.

Um disco que é tão duro de ouvir quanto belo, parecendo até reflectir os tempos que estamos a viver (foi gravado em Setembro e Outubro do ano passado, ou seja, antes da pandemia, mas a sua audição na presente conjuntura ainda o torna mais oportuno), reunindo peças a solo em que, para além do violoncelo e da voz, recorre a uma guitarra portuguesa tocada com arco, uma guitarra eléctrica e um teclado electrónico, e outras em que encontramos contribuições do violino de Maria do Mar, do contrabaixo de Sofia Queiroz Orê-Ibir, da percussão de Carlos Godinho e de letras de June Nash (baterista da banda pós-punk Matriarca Paralítica), Joana Bértholo e Alix Sarrouy (baterista dos Dead Club de Violeta Alexandre). A forma como Mar interage com Joana Guerra em “Rajada”, “Lume”, “Oásis” e “White Animal” é uma das principais delícias do alinhamento, Orê-Ibir acrescenta um travo de jazz em "Equinopes" e Godinho é essencial para a pulsação de “Onna-bugeisha” e dos já referidos “Lume”, “Oásis” e “White Animal”.

Segundo Guerra, esta é uma colecção de lamentos ritualizados em formato de canção, inspirada na terra vermelha e infértil da área rural em que habita no centro do País, e daí o carácter seco e áspero da generalidade da música, sempre com um cunho dramático e até encenado / teatralizado (com, por exemplo, dissonâncias levadas até ao extremo) em que o cenário apocalíptico sonicamente “descrito” conduz à ideia de que há uma «possibilidade de regeneração». “Chão Vermelho” funciona, assim, como uma exorcização pagã, xamânica, da negatividade, com a natureza a representar as fendas e as rugas da própria civilização humana e a cor vermelha a simbolizar os ciclos menstruais de renovação. Ora aqui está um dos lançamentos mais importantes de 2020.

  • Chão Vermelho

    Chão Vermelho (Miasmah Recordings)

    Joana Guerra

    Joana Guerra (violoncelo, voz, guitarra portuguesa, guitarra eléctrica, teclado) + Maria do Mar (violino); Sofia Queiroz Orê-Ibir (contrabaixo); Carlos Godinho (percussão)