Simorgh

João Lobo: “Simorgh” (Les Albums Claus / Shhpuma)

Shhpuma

Gonçalo Falcão

Simorgh é o nome tanto do novo disco do alfacinha João Lobo como deste trio com Norberto Lobo na guitarra e Soet Kempeneer no contrabaixo. Citando o baterista: «Do jazz à música Gana, do trance electroacústico à improvisação total, a solo ou em “big band”, colaborando em produções de dança e teatro e fazendo bandas sonoras para cinema», João Lobo quer manter-se inclassificável. Só conhecemos dois músicos portugueses em quem constatamos esta mesma versatilidade – Nuno Rebelo e Vítor Rua – e, se pensarmos a uma escala mais global, não iremos encontrar muitos. Lobo toca em inúmeros projectos seus (Oba Loba, Going, Tetterapadequ, Norman, Mulabanda) e de outros músicos. Um dos mais notáveis é o Trio Giovanni Guidi (que edita na ECM, crítica aqui https://jazz.pt/ponto-escuta/2019/03/01/giovanni-guidi-trio-quintet-avec-le-temps-ecm/ e aqui https://jazz.pt/ponto-escuta/2019/02/04/giovanni-guidi-avec-le-temps-ecm/).

Apesar de se querer manter flutuante, desrotulado, tem uma carreira já notável no contexto do jazz, tendo tocado com Enrico Rava, Marshall Allen, Roswell Rudd, Carlos Bica, Nate Wooley, Thomas Morgan, Chris Corsano, Lynn Cassiers, entre outros. É provavelmente pelo facto de ter o ouvido tão aberto e por ouvir e gostar de tantas músicas que é um baterista tão requisitado.

Apesar do título místico-mítico, o novo disco explica-se com alguma facilidade: bases rítmicas alucinantes, dançáveis, muitas perto do trance ou com andamentos muito rápidos, cheias de detalhes e acontecimentos dentro, inteligentes, criando uma conjuntura rítmica em que tudo o que acontecer por cima fica bem. E é aqui que entra a guitarra eléctrica de Norberto Lobo, saturada e com wah-wah. É um som espacial, que de algum modo faz lembrar as experiências de Ash Ra Tempel ou Todd Rundergreen.  Norberto Lobo expõe um tema e depois improvisa, sola, a partir desse motivo central. São frases curtas repetitivas, quase sempre espelhadas, que dão o contexto para o solo. De algum modo a guitarra está sozinha, é o instrumento com maior vocação melódica e por isso fica solitária nesta missão. O contrabaixo apoia, estrutura, também pela repetição, garantindo uma organização de apoio aos delírios da guitarra.

“Seventy One Seventy Two” e “A Porta das Almas Santas”, as duas músicas que fecham este CD, saem um pouco desse modelo. São mais lentas e abertas. Tanto a guitarra como a bateria criam um ambiente tenso, uma fina linha que separa a normalidade da loucura. Ocorrem imagens de bombas de gasolina solitárias nas estradas americanas, onde tudo pode acontecer.

João Lobo continua a construir uma carreira admirável, com cada disco a surpreender-nos e a precisar de ser ouvido. Este “Simorgh”, perto do jazz e do rock experimental, com um “groove” espacial, é uma excelente surpresa. E que bem que os dois Lobos tocam. São casos excepcionais na música portuguesa, com boas técnicas a juntarem-se a ouvidos cultos e inconformados.

  • Simorgh

    Simorgh (Shhpuma)

    João Lobo

    João Lobo (bateria), Norberto Lobo (guitarra eléctrica), Soet Kempeneer (contrabaixo)