Rolling Ball

Ballrogg: “Rolling Ball” (Clean Feed)

Clean Feed

Gonçalo Falcão

Ballrogg é um trio com uma instrumentação particular: clarinete, contrabaixo e guitarra. Vem da Noruega, formou-se em 2006 e já tem cinco discos, sendo “Rolling Ball” o segundo na Clean Feed. O primeiro foi editado há três anos e este tempo sem gravar gerou algumas mudanças. O som do grupo é agora ainda mais delicado, parecendo música de câmara. Um jazz tocado nos salões de madeira das casas de campo americanas. Neste novo álbum, Ivar Grydeland, o guitarrista anterior, que tinha um som e um fraseado tipicamente “Americana”, é substituído pelo sueco David Stackenäs, que é muito mais europeu, contido e sucinto. Tem uma lírica própria e isso sente-se neste novo disco, que é o melhor que conheço dos Ballrogg. Compõe cinco das oito peças do CD (até agora a escrita esteve sempre a cargo de Holm) e a mudança na personalidade musical do grupo sente-se.

Os temas desenvolvem-se em ciclos, numa espécie de repetitivo melódico. São paisagísticos, avançam como quem rola sem pressa de chegar, numa viagem de descapotável pelo campo em dia de Primavera. A estrada tanto é americana, infindável, como europeia, ladeada por árvores verdes. A música funciona como um pastoral híbrido entre a sonoridade americana e a europeia. O trabalho nos arranjos está muito mais detalhado do que no disco anterior, adicionando modelos contrapontísticos a estas melodias bucólicas, fazendo com que sejam complexas e simples ao mesmo tempo. Por vezes, parece que estamos a ouvir a guitarra folk de Crosby, Stills, Nash and Young (ex: “Sonata 220 and 110”), mas subitamente o contrabaixo entra com uma frase que cria uma resposta interessantíssima àquela facilidade. Depois, o clarinete adiciona outra camada, fazendo a música ir para uma direcção completamente diferente. E é por isso que “Rolling Ball” nos encanta, feito de elementos muito simples que geram soluções inteligentes para os retirar do óbvio.

O “kairos”, o momento certo, está pré-definido, é fabricado pela escrita inteligente das canções dos Ballrogg, mas resulta numa qualidade mágica, pois parece ter sido criado pela natureza. Nunca sabemos o que está para vir e o que vem tem sempre uma coerência improvável. As canções têm uma qualidade contemplativa, um sentido tranquilizador. É uma música de não-lugares, de espaços que medeiam o encontro entre um início e um destino. Faz-nos sair do mundo pendular, quotidiano, e apreciar uma beleza que começa por se apresentar despojada, mas que a cada movimento muda suavemente. Tem uma fluidez admirável, construída através da falsa repetição – que nos faz acreditar que sabemos o que se segue –, mas que, não se repetindo integralmente, vai desenrolando uma lenta surpresa.

  • Rolling Ball

    Rolling Ball (Clean Feed)

    Ballrogg

    Klaus Ellerhusen Holm (clarinete em Si bemol, clarinete baixo); Roger Arntzen (contrabaixo); David Stackenäs (guitarras eléctrica e acústica)