Where Future Unfolds

Damon Locks Black Monument Ensemble: “Where Future Unfolds” (International Anthem Recording Co.)

International Anthem Recording Company

Gonçalo Falcão

Uma capa fenomenal, em ouro impresso a preto, conduz-nos até “Where Future Unfolds”. A música começa com um ritmo pedestre e um coro feminino que nos relembra o musical “Hair”. Sentimos que entramos num processo de contracultura tribal. Damon Locks (electrónica), o agregador, parte de um quarteto (clarinete, bateria, percussão, electrónica) e aditiva-o com seis cantores e sete bailarinos. Quase sem instrumentos melódicos, percebemos desde já que a catarse vai ser rítmica e vocal. Locks opera em várias frentes artísticas, não só na música como nas artes visuais e, depois de passar por vários projectos musicais em variados universos estilísticos, fundou em 2015 o Black Monument Ensemble, que de algum modo regressa às experiências colectivas dos anos 1960 e pelas mesmas razões.

A América negra continua hoje a ser discriminada e desfavorecida e por isso este regresso a uma situação de musical negro que interroga o presente, que procura continuar os movimentos negros dos direitos civis dos Sixties, integrando ainda preocupações ambientalistas, parece fazer algum sentido. A palavra “power” é repetida insistentemente num gospel atirado para cima de uma enorme batucada. “I Can Rebuild a Nation no Longer Working” relembra o sentimento de revolta e a vontade de criar movimentos de mudança.

A música está nas franjas do que chamamos jazz, mais perto da ideia de um musical. Faz-se sentir a influência de Rob Mazurek e da sua Exploding Star Orchestra e também dos grupos que promoveram a música negra nas suas diferentes perspectivas – a cosmogénese de Sun Ra, o colectivismo da AACM, o tribalismo do Art Ensemble of Chicago ou os blues de Attica segundo Archie Shepp – numa música de grandes dimensões, cantada por colectivos em que sobressai a voz feminina. “Where Future Unfolds” integra trechos de gravações de activistas dos Direitos Civis negros para criar um propulsor para o ataque rítmico – em que a bateria é fortemente ampliada por um grande conjunto de percussões - sinos, chocalhos, campanas, caxixis, kalimbas, shakers -, sobre o qual aparece uma electrónica abstracta que soa frequentemente retro (remetendo-nos para Sun Ra, com sons tipo Farfisa, Mellotron e outros).

O Black Monument Ensemble é não só um grupo, mas também parte de um movimento que recupera a herança musical original já referida e a transporta para o presente (nem sempre actualizando-a, o que é pena). É bom perceber que não deixou cair o testemunho e que uma nova geração de músicos vai beber às mesmas motivações e com o mesmo sentido (sendo incrível que 80 anos depois ainda seja preciso fazê-lo). Ouvimos o Artistic Heritage Ensemble, os Black Rhythm Happening, It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back e relembramos o mesmo som, com os espirituais negros a cruzarem-se com o hip-hop, e com activismo social / ecológico (o jazz lá ao fundo, nos solos de Angel Bat Dawid no clarinete).

A capa promete imenso, a música não dá tanto (gostávamos de ter ouvido uma abordagem mais original e única e não tão revisionista em termos sonoros), mas não desilude. Em LP, esta edição muito bem tratada graficamente pela International Anthem Recording Company é um prazer, com uma capa dura à americana, fotos da performance e as letras. Deixa-se ouvir com agrado. O disco foi gravado ao vivo, em Novembro de 2018, numa performance no Red Bull Music Festival de Chicago.

  • Where Future Unfolds

    Where Future Unfolds (International Anthem Recording Company)

    Damon Locks Black Monument Ensemble

    Damon Locks (electrónica, sinos, voz); Angel Bat Dawid (clarinete); Phillip Armstrong, Monique Golding, Rayana Golding, Eric McCarter, Tremaine Parker, Lauren Robinson (vozes; Dana Hall (bateria); Arif Smith (percussão)