Universal Beings E & F Sides

Makaya McCraven: “Universal Beings E & F Sides” (International Anthem Recording Company)

International Anthem Recording Company

Gonçalo Falcão

Explorado o filão do “novo jazz” inglês, é tempo de regressar à América, onde as coisas parecem estar bem mais interessantes. Londres foi, para já, uma desilusão: parece haver muito dinheiro para promoção, mas o propósito é fazer música confortável. Colocamos a agulha no início do lado E deste “Universal Beings” (não há lado A e B, só E e F) e entregamo-nos à música do baterista, compositor e produtor Makaya McCraven. Gravou o disco com diferentes grupos, um para cada música, em duos, trios, quartetos e sextetos, com algumas das “rising stars” do momento: Kamaal Williams, Nubya Garcia, Shabaka Hutchings (e até Damon Locks, que desenha a capa do disco). Este novo álbum nasce do anterior com o mesmo nome, editado em 2018, que, esse sim, tinha os lados A e B. Tecnicamente, é uma adenda ao primogénito, que foi altamente aplaudido pela crítica.

Temos agora mais 14 novos “beats” orgânicos que tinham sido gravados nas sessões de 2018 e excluídos. Depois de os ouvir, concluímos: valem a pena e a música não é menor da que tinha sido antes editada. O mundo musical de McCraven não é básico e simplista, não está feito para ser simpático e agradável, como tanto do que ouvimos nesta nova geração que é tantas vezes muito pouco “nova”. McCraven é muito mais do que um grande baterista, é um compositor e organizador inteligente, com uma proposta musical de estúdio atraente.

McCraven também integra o hip-hop nos seus ritmos, mas fá-lo com originalidade, sem soar ao que já ouvimos no período do Acid Jazz nos anos 1990 – US3, United Future Organization, Miles Doo-Bop. O hip-hop, nas suas múltiplas derivações estilísticas (do drum’n’bass ao jungle) tornou-se num ritmo global, numa espécie de Microsoft da música do planeta. Ubíquo, está em todo o lado, do elevador ao jazz. É por isso um elemento difícil de integrar com qualidade e o que temos ouvido em muita desta frente musical é um uso vulgar e fácil. Neste sentido, Makaya McCraven é um prazer, porque sendo um baterista compositor, trata o ritmo com um cuidado particular. Na verdade, e apesar de alguma formalização hip-hop, ecoa na sua bateria o Jack DeJohnette das “Cellar Door Sessions” de Miles Davis ou de “Bitches Brew”, bem com de Alphex Twin no “Richard D. James Album”.

Makaya é um baterista filho de baterista: Stephen McCraven, o seu pai, chegou a tocar com Sam Rivers e Archie Shepp e isso nota-se. O seu conhecimento profundo da música e do jazz faz com que não se limite a deslumbrar-se com terrenos já pisados, procurando um caminho novo. Apesar de este disco e do seu antecessor terem sido gravados aos solavancos, em diferentes locais e com diferentes músicos, têm uma unidade interessante e uma sequência musical lógica, com uma variedade de sons e de ambientes interessante.

O LP abre com um tema que nos faz regressar aos US3 de “Hand on Torch”: um baixo magnífico, um vibrafone repetitivo, uma bateria “cool” e, subitamente, vem a harpa de Brandee Younger destruir tudo, quando já pensávamos estar a perceber a coisa. A música muda para uma bateria inumana (Aphex Twin) num trio com electrónica e saxofone. Muda radicalmente o ambiente e entramos num comboio a altíssima velocidade, algo que Count Basie nunca imaginou poder sequer existir. Chega a terceira música e a batida volta a ser o elemento mais marcante e, mais uma vez, extremamente original. Imagino o pânico de Nubya Garcia, Ashley Henry e Daniel Casimir: «Como é que se entra aqui...» Depois saltamos novamente para uma atmosfera “cool” em que Nubya já consegue estar à vontade, com um solo lento e paisagístico. O disco segue assim, com o lado F muito mais estável, depois de um início variado. Acaba deixando vontade de puxar atrás a agulha e ouvir de novo. Esta “nova geração” londrina ou de Chicago tem modos comuns de fazer as coisas e explora muito bem a disponibilidade tecnológica da actualidade: processos colaborativos muito bem interiorizados, uma abordagem sistemática de todo o processo, excelentes “skill”s de produção e mistura em computador. Discos assim nunca são só discos, surgem com documentários e com vídeos para a Internet, envolvendo um grupo grande de músicos e artistas visuais, com imagens em movimento que se entreajudam, redes sociais bem lubrificadas, etc. A dúvida que se instala é se esta música sobrevive “ao vivo”. Já ouvimos alguns destes instrumentistas a tocar em palco e ficámos com a sensação de que, se são excelentes em estúdio e a produzir e editar a música em computador, quando sobem ao palco a música esfarela-se e fica vulgar. Mas também já ouvimos o contrário. Como em todas as novas gerações ao longo dos anos, o tempo, a música e a vida fará a selecção. Vamos ouvi-los e apoiá-los para que se desenvolvam.

  • Universal Beings E & F Sides

    Universal Beings E & F Sides (International Anthem Recording Company)

    Makaya McCraven

    Makaya McCraven (bateria); Soweto Kinch, Josh Johnson (saxofone alto); Nubya Garcia, Shabaka Hutchings (saxofone tenor); Miguel Atwood-Ferguson (violino); Tomeka Reid (violoncelo); Brandee Younger (harpa); Joel Ross (vibrafone); Kamaal Williams (teclados); Ashley Henry (piano eléctrico Fender Rhodes); Jeff Parker (guitarra eléctrica);  Dezron Douglas, Daniel Casimir, Anna Butterss (contrabaixos); Junius Paul (contrabaixo, percussão); Carlos Niño (percussão)