We Are Sent Here by History

Shabaka and The Ancestors: “We Are Sent Here By History” (Impulse!)

Impulse!

Gonçalo Falcão

Diz-se que a história se repete. E se mais exemplos fossem necessários a audição deste “We Are Sent Here by History” leva-nos de volta para a primeira leva da emigração sul-africana para Londres, na altura para fugirem de uma condenação do Apartheid por tocarem música “inconveniente”. Dollar Brand, Chris McGregor, Dudu Pukwana, Mongezi Feza, Johnny Dyani, Harry Miller, Mike Westbrook, Gwigwi Mrwebi, Ronnie Beer, Coleridge Goode, Laurie Allan, Louis Moholo-Moholo (com que Shabaka toca no Louis Moholo-Moholo's Five Blokes) e outros fugiram para a cidade onde vive a realeza, o que lhes permitiu continuar a viver, tocar e criar um jazz novo, mesclado, que integrou e integra as canções tradicionais africanas.

Shabaka and The Ancestorsformou-se no início de 2016, ano em que lançaram o seu primeiro disco, “Wisdom of Elders”. O inglês Shabaka Hutchings juntou-se a um grupo de músicos de jazz sul-africanos que não estão em fuga da cadeia, mas à procura de um público mais amplo. “We Are Sent Here by History” é um disco que inclui as qualidades do “Origami Harvest” de Ambrose Akinmusire: um olhar informado do passado, a integração de elementos rítmicos contemporâneos, uma lógica musical própria, alegria e dançabilidade.

O álbum tem várias qualidades. Em primeiro lugar a produção, que não tem aquele som digital tão típico (Nubya Garcia, Snarky Puppy): parece gravado ao vivo, com o contrabaixo a soar a madeira e a bateria a tambores. O uso do rap, um dos elementos estruturais da cultura hip-hop, com discursos rítmicos, rimas e textos, faz-se não só com coisas para dizer (o mínimo que se pede), mas num espírito tribal que evoca o Art Ensemble of Chicago ou mesmo a Sun Ra Arkestra (“Nuclear War”, 1983). Recupera-se um pouco a dimensão colectiva da música preconizada por Muhal Richard Abrams e trabalhada pela AACM. Com aquela ideia de que o individualismo do solista se desagrega e o colectivo se empodera. Encontramos boas linhas de contrabaixo, simples, mas compensadas por sopros inteligentes e essencialmente rítmicos. Repetições, ideias curtas, mas fortes. A bateria e as percussões desenfreadas dão ao som do grupo uma estrutura e um ambiente. É um elemento fundamental.

“We Are Sent Here by History” quer ser uma meditação sobre o nosso processo de extinção. Não é uma visão apocalíptica, mas reconhece a noção de que estamos neste planeta a prazo, a consumi-lo exageradamente, e que ou encontramos formas de viver fora daqui ou, provavelmente, seremos consumidos. É verdade que os discos desta nova geração inglesa tendem a ter uma narrativa associada para que possam ser melhor interiorizados pelos consumidores - tudo agora deve ter um “conceito” para que possa ser “experienciado”. Mas as motivações, aqui, soam genuínas e são-no porque, se retirarmos a narrativa, a música continua a responder-nos com interesse e “verve”. Bons solos de Shabaka. Emotivos, fortes. Dão vontade de o ouvir em trio.

Shabaka define “We Are Sent Here by History” como um disco sobre as vidas perdidas e as culturas desmanteladas por séculos de expansionismo ocidental, pensamento capitalista e hegemonia estrutural supremacista branca. É um disco político e ainda bem, mas é essencialmente esperançoso, belo e dançável. Música boa de ouvir que confirma Shabaka como um dos músicos a seguir desta nova geração em que há muita promoção, muitas redes sociais, muito conceptualismo, mas nem sempre muita música.

  • We Are Sent Here by History

    We Are Sent Here by History (Impulse!)

    Shabaka and The Ancestors

    Shabaka Hutchings (saxofone tenor, sopros vários); Mthunzi Mvubu (saxofone alto); Mandla Mlangeni (trompete); Siyabonga Mthembu, Nduduzo Makhathini (vozes); Thandi Ntuli (piano); Ariel Zamonsky (baixo eléctrico, contrabaixo); Tumi Mogorosi (bateria); Gontse Makhene (percussão)