Wu Hen

Kamaal Williams: “Wu Hen” (Black Focus Records)

Black Focus Records

Gonçalo Falcão

O novo jazz... o novo jazz inglês. São designações em uso para caracterizar uma série de músicos e projectos musicais que trazem como grande novidade uma batida techno e um frescor agradável nos arranjos e na produção. Sabemos que os ingleses são excelentes vendedores e que têm um enorme sentido comercial. Sabemos que há uma geração nova que não ouviu Joe Harriott, Chris McGregor, Dudu Pukwana, Mongezi Feza, Johnny Dyani, Harry Miller, Mike Westbrook, Soft Machine, Henry Cow, John McLaughlin, Dave Holland, Keith Tippett, Evan Parker, Mike Osborne, John Surman e tantos outros. Para essa geração, tudo é novidade. E é certo que, por vezes, as há e por isso, nada como ouvir.

Já passamos pelo Kamasi, pelo Ambrose, pelos Snarky Puppy. Agora andamos atrás da Nubia, do Kamaal, do Makaya e do Shabaka. Queremos conhecer isto tudo, até porque tanto o primeiro disco de Kamasi Washington como o último de Ambrose Akinmusire são muito bons (com destaque para este último). No caso de Kamasi, a música não tem novidade, é jazz modal coltraneano muito bem produzido e bem tocado que se espalha redondamente ao vivo (transforma-se em funk de fancaria).

Neste “novo jazz”, começamos a perceber, há algum trigo, mas sobretudo imenso joio. Kamaal é um destes casos. Joio já passado. Estamos cientes de que a palavra “jazz” se alargou em várias direcções e que serve hoje para cobrir uma série de músicas mais ambientais e não cantadas. Aceitemo-lo com resignação, pois pecámos noutras vidas. Vamos então a “Wu Hen”, um disco fraquíssimo. Pior, piroso. Não há outra forma de o dizer. Ouvimos o pior dos anos 1990 – Rippingtons, Spyro Gyra –, mas sem a velocidade. É verdade que estes discos são feitos para um público que não tem estas referências, mas o problema é exactamente o mesmo das referências e pelas mesmas razões. Poucos foram os que entraram naqueles mundos e sobreviveram. Nem toda a gente tem a capacidade musical de Herbie Hancock.

Esta é uma música que quer tocar em grandes festivais pop (nada contra – tudo a favor), mas não sabe como o fazer e por isso atulha-se de frases batidas no piano, um som de saxofone à Michael Brecker sempre a simplificar e que parece samplar frases ouvidas vezes sem conta, solos igualmente feitos de lugares-comuns gordurosos (com o piano nunca saindo do mesmo sítio...). Nem se acredita que voltou o som da GRP, ainda que sem malabares. Kamaal Williams entrou no circuito com “The Return” em 2018 e há quem diga que este novo disco é ainda melhor. Percebo que nesta sede de repescagem do passado se vá a todos os baús, mas... ouvimos “Big Rick” e não conseguimos perceber porque é que se vai recuperar estes sons e colocá-los ao serviço de uma música tão pobre de ideias.

“Wu Hen” é musak para casas de alterne de província com sintetizadores nos seus piores registos, ambiente “cool”, batida fácil e quadrada e solos de saxofone para canções de Celine Dion. “Save Me” é o tema que eu aconselharia para quem quiser picar o disco: o baixo... o sintetizador. E quando entra a frase do saxofone, assim saltitante em modo imbecil, ficamos vacinados. Em “Hold On” usa-se uma cantora. Mais uma vez impressiona pela vulgaridade da escolha. Zero de novidade, zero de unicidade, a bater no vermelho na escala do azeite. Segue-se uma harpa no estilo do final de “Titanic”, sobre violinos. Fui mau noutra vida? Não ouvimos “The Return” nem vamos ouvir. Mas “Wu Hen” é demasiado mau. Percebe-se por que é que é tão agradável para os miúdos mais novos. Quanto aos mais velhos: há muita gente que ainda ouve Dire Straits. Quando o disco chega a “Early Prayer” sinto que estou de castigo. Bieber jazz.

  • Wu Hen

    Wu Hen (Black Focus Records)

    Kamaal Williams

    Kamaal Williams (teclados);Quinn Mason (saxofone); Lauren Faith (voz); Alina Bzhezhinska (harpa); Miguel Atwood-Ferguson (cordas); Rick Leon James (baixo eléctrico); Greg Paul (bateria)