I Like to Sleep: “Daymare” (Rune Grammofon)

Gonçalo Falcão

A fórmula é simples e já conhecida, mas se neste caso é a mesma fórmula, tem resultados diferentes. Como é que isto se faz? A Rune é das editoras que mais distribuem jazz para tipos que gostam de rock. Trata-se de uma série de bandas – Elephant 9, Krokofant, Motorpsycho, Hedvig Mollestad, Fire!, Bushman’s Revenge – que radicam no rock (normalmente no stoner ou no psicadelismo californiano) o seu jazz, partilhando entre si uma série de elementos, como os baixos simples e propulsores ou as baterias desenfreadas. Assim sendo, não deixa de surpreender a novidade neste contexto. O disco em causa é “Daymare”, o mais recente dos I Like to Sleep, um “power trio” nórdico de bateria (Øyvind Leite), guitarra barítono (Nicolas Leirtrø) e vibrafone (Amund Storløkken Åse). A música é lenta. A guitarra barítono - mais ágil do que um baixo – é supereconómica e dá-nos linhas vagarosas, angustiadas, como quem acompanha um cortejo fúnebre ou uma ida a uma reunião de condóminos. A bateria, igualmente simples, soa à pureza de Charlie Watts. O vibrafone é o elemento mais inesperado e toca delicado, angelical. O álbum ouve-se como uma sequência e quando passamos para o lado B do LP (também há a versão em CD) saímos do registo pensativo para acelerar, ficando depois mais abstracto e regressando no final à receita inicial. O brilho do som do vibrafone contrasta com a densidade grave da guitarra, numa conjugação perfeita que dá um encanto muito particular à música deste trio.

Esta banda norueguesa constituída por vinte-e-dois-anistas reuniu-se em Trondheim e terá sido pela afinidade comum com o rock psicadélico e o progressivo que decidiu agrupar-se. Saiu este som inesperado de jazz musculado e simultaneamente delicado que se nomeou com uma frase de Thelonious Monk: «I like to sleep. There is no set time of day for sleep. You sleep when you’re tired and that’s all there is to it». "Daymare" é o segundo álbum da formação e é injusto dizer que são mais um grupo de jazz-rock da Rune Grammofon. A fórmula mais lenta, as melodias bem definidas e o contraste entre os graves pesados e o brilho metálico do vibrafone tornam estes I Like to Sleep muito particulares e realmente originais. Não têm parado de soar no meu gira-discos.