Untamed

Mad Nomad: “Untamed” (Edição de autor)

Edição de autor

António Branco

No princípio era o verbo. A história do projeto Mad Nomad e do álbum de estreia “Untamed” – já disponível nas plataformas digitais e com edição física até final do ano – começa a escrever-se, literalmente, na derradeira fase de permanência da nómada Catarina dos Santos (n. 1977) em Nova Iorque (por lá viveu uma década) e depois em Londres (onde estudou composição e produção), quando fixou em texto experiências e inquietações que são o espelho do que é viver em grandes metrópoles: gentrificação, discriminação, integração, hiperglobalização, consumismo.

«A palavra aqui é o rastilho, é o cenário e a provocação. A palavra e a música estão em profunda relação», começa por nos dizer Catarina. «[Os textos] são escritos por uma mulher, logo com a perspetiva de uma mulher músico imigrante. São escritos por uma mulher e transformados em som, com toda a sua dimensão e força, ao vivo, por colegas que acreditam em igualdade de género e a praticam de base nas suas vidas», acrescenta. Palavras secundadas pelo baixista Hugo Antunes: «A palavra é a espinha dorsal, a música o seu veículo. No entanto, ambas sobrevivem por si só.» É também ele quem salienta que «somos um grupo feminista que não precisa de assegurar paridade.»

A relação entre palavras (em registo “spoken word” ou cantadas, de formas mais ou menos convencionais) e música está no coração deste projeto. Para construir a música que envolvesse as palavras, Catarina recolheu “samples” de origem muito diversa, como discos em vinil de Carlos Paredes, Zeca Afonso e Miles Davis, depoimentos de quem viveu os confrontos de 1967 em Newark (subúrbios de Nova Iorque, onde reside uma significativa comunidade portuguesa), sons do seu filho gravados durantes as visitas a Portugal, e utilizou o que melhor servia como banda sonora para cada texto.

Na capital inglesa, juntou nos estúdios da Goldsmiths University, o baixista de Queens, Gerald Thomas, o guitarrista Mário Reis e Matt Kirk (que colaborou na pré-mistura do álbum) e gravou estruturas sonoras que são fruto da exposição a uma miríade de sons de todo o mundo e que tanto podem ser colagens como aproximar-se do formato canção. As influências basilares dos ritmos afrobrasileiros, do hip-hop e do R&B são processadas e decantadas para dar corpo ao conceito do álbum.

Com os temas na bagagem, Catarina regressou a Lisboa em 2017. A fase seguinte foi pensar em transpor o álbum para um contexto ao vivo e nos músicos (maioritariamente vindos da área do jazz e com percursos reconhecidos) que poderiam fazer a ligação entre o que trouxera de Londres, «de modo a manter os arranjos e adicionar a sua criatividade ao processo de tradução da gravação para música ao vivo, viva, aberta para improvisação, e com o potencial de transmutação através do processo de ensaios», sublinha Catarina.

Para além de Antunes, reuniram-se o baterista Luís Candeias, o pianista Óscar Graça (aqui nos sintetizadores) e, mais tarde, o manipulador de eletrónicas André Pinheiro (aka Apache) para burilar o material sonoro criativamente e em conjunto. A química foi de tal modo satisfatória que Catarina não tem dúvidas em afirmar que “Untamed” «vive dessa abertura, que se reflete na banda, na postura dos seus elementos, nas suas influências traduzidas na contribuição para o som final do álbum, e na maestria de cada um.»

“Vignette (Mother and Son)” é a introdução atmosférica onde ecoa uma lengalenga infantil. Magnífica canção, “A Mad Nomad” evoca memórias de algum do trip-hop mais soalheiro, com a voz de Catarina carregada de energia, o piano “bluesy”, os sintetizadores a trazerem algum psicadelismo. (A versão que aqui se escuta é a que resultou do vídeo de apresentação do grupo nas redes sociais, que agradou ao ponto de substituir a original.)

“Blunt Solar Wit” adentra-se em territórios hip-hop com “beat” morno e voz assertiva que a dado passo cita Zeca Afonso (“Senhor arcanjo/ Vamos jantar/ Caem os anjos/ Num alguidar”). “Columbus Day on the J” é outro momento em que as rimas ao jeito da Big Apple combinam com certa pop banhada a soul. Assim chegamos a “Newark on the Go”, um dos melhores temas do disco e um dos seus momentos mais perturbantes, assente na colagem de diferentes vozes e sons que resulta numa pujante tomada de posição denunciadora dos problemas raciais e socias nas periferias de Nova Iorque, agudizados na era do inenarrável atual inquilino da Casa Branca.

“Emotions Tamed” sabe a África, não apenas pelas palavras, também pela base rítmica possante, cortesia de Antunes e Candeias. Depois de acolhidos nessa bolha de serenidade que é “Double Heart Beat”, em “La Dona del Barrio” somos contagiados por sons latinos trasladados para a grande urbe (de novo o baixo elétrico de Antunes a mesclar-se com as palavras). A fechar, “Macho Mouth and the Lost Sister” é um notável caleidoscópio sonoro em que se escutam os trinados da guitarra de Mestre Paredes e que nos deixa a indagar tudo o que escutáramos antes.

Eis uma formação com potencial para desbravar um caminho próprio. “Untamed” é um álbum fascinante para quem entende as explorações, as misturas, a multiculturalidade e o respeito pela diferença como energia propulsora para o mundo pular e avançar. Catarina dos Santos mostra porque é uma mente criativa atenta e interventiva, cujo universo artístico importa não perder de vista.

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    Untamed (Edição de autor)

    Mad Nomad

    Catarina dos Santos (voz, pedais, composição); Óscar Graça (sintetizadores); Hugo Antunes (baixo elétrico, pedais); Luís Candeias (bateria, bateria eletrónica); André Pinheiro aka Apache (laptop / sampling)