The Deceptive 4 Live

Tim Berne’s Snakeoil: “The Deceptive 4 Live” (Intakt)

Intakt

Gonçalo Falcão

Nos anos 1990, Nova Iorque era a Meca do jazz. Era de lá que vinha tudo o que era inovador e era para lá que todos olhávamos, sedentos de que as rodelas pretas chegassem, importadas, à  secção de novidades da  Contraverso, da AnAnAnA ou da Tubitek. A criatividade orbitava pela Knitting Factory e por um circuito jazzístico paralelo ao já instalado, mais conservatorial. As bandas - como no rock - afirmavam-se num território que era feito de “grandes nomes”. John Zorn com os Naked City, Bobby Previte com o Moscow Circus, Tim Berne com os Caos Totale, David Moss com a Dense Band, Marc Ribot com os Roothless Cosmopolitans, Bill Laswell e Fred Frith nos Massacre, Elliott Sharp e Zeena Parkins nos Carbon, Don Byron, Eugene Chadbourne (Dr. Eugene, enorme, que nunca tocou ao vivo em Portugal...!), Christian Marclay (outro gigantesco que nunca tocou cá, ainda que tenha apresentado a sua vídeo-arte) , Tom Cora, Arto Lindsay, Wayne Horvitz, Joey Baron, Hank Roberts, Drew Gress e Greg Cohen... estou a esquecer-me de alguns certamente.

O grau de inovação e a quantidade eram enormes. Pelo seu talento e sagacidade comercial, Zorn funcionou como um eucalipto e sugou toda a atenção. Depois do período inicial em que criava obras-primas umas atrás das outras – com Cobra, Naked City, Spillane, Painkiller, News For Lulu, Spy Vs Spy, Archery, Pool - ficou a estrela mais conhecida da sua geração, limitando o volume de todos os outros. Vemos hoje com mais nitidez, passados 30 anos, alguns seus contemporâneos, como Tim Berne, a manter um nível de inovação e risco excecionais, enquanto Zorn e a sua fábrica de Masadas se tornaram uma maçada.

Tim Berne manteve-se experimental e à procura de novos caminhos. Depois de várias formações – Big Satan, Miniature, Paraphrase, Very Practical Trio, Tim Berne Sextet, Tim Berne 7, Bloodcount, Science Friction Band -, assentou os Snakeoil e descobriu uma mina de ouro. Para quem já os ouviu ao vivo (já tocaram em Portugal pelo menos uma vez, no Jazz em Agosto, naquele que foi um concerto incrível) sabe que isto é uma preciosidade que resulta de dois factores: a escrita da Berne e o modo como estes quatro músicos a tocam (por vezes com um quinto, um guitarrista, que tem sido Marc Ducret ou Ryan Ferreira). Nunca se instalam em terrenos confortáveis, arriscam sempre, atiram-se de cabeça, são destemidos. E quando essa atitude se junta a 40 anos de experiência e a uma técnica perfeccionada, o resultado é, por norma, notável.

Tim Berne no alto, Oscar Noriega nos clarinetes, Matt Mitchell ao piano e a bateria de Ches Smith: apesar de a vida ensinar o contrário, diria que este grupo só funciona com estas quatro pessoas. Não são substituíveis. Apareceram em disco no ano de 2012, na ECM, e este ano mudaram-se para a suíça Intakt e colocaram logo dois discos dois no mercado. “The Fantastic Mrs. 10” no início do ano (muito bem revisto por António Branco na jazz.pt: https://jazz.pt/ponto-escuta/2020/04/07/tim-bernes-snakeoil-fantastic-mrs-10-intakt/) e este acabadinho de sair, duplo, gravado ao vivo.

Os Snakeoil são o principal veículo da música de Tim Berne na última década e provam que o saxofonista é hoje um compositor e “bandleader” brilhante. Apesar de não se rever no adjectivo “complexo” para caracterizar esta música, este serve perfeitamente para uma primeira aproximação: um denso intrincado melódico e rítmico. A ausência de contrabaixo deixa a bateria sozinha com dois sopros e um piano, que resolvem belíssimas linhas musicais, entusiásticas, vivas, cerradas: «The band has the power to get heavy, but not having a bass player allows some air in the sound».

Imagine-se o piar de um pássaro canoro: não obedece a nenhum padrão rítmico ou melódico ocidental, mas de algum modo encontramos beleza naquela sequência longa e aparentemente desconexa. Agora imagine-se que ela é dobrada por dois sopros  - sax e clarinete - e que um piano entra e sai do uníssono, desmultiplicando-a harmonicamente. A bateria parece estar sempre a tocar outra música ainda mais rápida e, no entanto, acerta em pontos chave com estas melodias, dando-lhes um sentido e uma lógica. Tudo isto é extremamente complexo, resultando numa música nova, inaudita e atraente, que soa pura e de convivência fácil.

O duplo CD “Deceptive 4” foi gravado ao vivo em dois momentos e mostra bem a evolução da escrita de Berne e do modo como ela é interpretada: os temas foram captados em 2009 e 2010 na IBeam e na Roulette em Nova Iorque, no segundo e terceiro concertos feitos por este grupo, e na também nova-iorquina Firehouse 12 em 2017. A masterização é de David Torn (que, como António Branco fez bem notar no seu texto, «é uma figura decisiva para o resultado final»). Estava tudo lá, desde o início, quando o grupo nem sequer tinha nome. O que ouvimos em disco em 2012 é uma música que já estava madura uns anos e andou só a ser polida. A Firehouse 12 grava extraordinariamente e a qualidade acústica é fabulosa e deixa-nos perceber que a banda continua a atirar-se para o vazio sem rede e com a mesma convicção, sete anos depois. Esta separação temporal permite-nos ouvir alguns aspectos do processo evolutivo dos Snakeoil, desde os primeiros dias (no que viria a ser “Shadow Man”, o primeiro disco, de 2013, na ECM), até à maturidade. São tudo peças originais, que ficaram de fora dos seis discos editados até agora, com exceção de “OCDC” que já se tornou um clássico.

A audição revela aspetos interessantes desta música nova: o desenvolvimento da escrita, notando-se claramente que Berne compõe para estes músicos específicos e para a sua maneira de tocar, e a evolução da banda, a executar esta música inexequível. Em 2017 há uma muito melhor gestão das intervenções de cada músico: nem todos tocam ao mesmo tempo e o quarteto vai formando diferentes trios e duos, o que não ouvíamos no início. Ches Smith é, em 2017, um percussiobaterista, tendo alargando a sua paleta sonora com vibrafone, tímpanos e gongos. A química com o piano de Matt Mitchell é única e este parece ser o que une os quatro coerentemente. Sentimo-nos dentro de um carro de montanha-russa, cinto posto e apertado com a música a passar por nós no limite dos gês, oscilando entre o lirismo esquinado e um expressionismo flamejante. Noriega e Berne têm uma ligação telepática e o papel do piano nesta relação é interessantíssimo de seguir, dobrando a linha melódica em uníssonos ou separando-se dela como quem está ao lado a desmatar um território harmónico.

Berne mostra ser hoje o mais interessante saxofonista da geração nova-iorquina dos anos 1990 que tanto deu – e continua a dar – ao jazz. O que mais arrisca, o que mais experimenta e o que mais inova. Um dos grandes músicos do jazz do nosso tempo. Este disco duplo ao vivo, de um grupo extraordinário, é um dos melhores que me chegaram aos ouvidos e facílimo de medalhar com cinco estrelas.

  • The Deceptive 4 Live

    The Deceptive 4 Live (Intakt)

    Tim Berne’s Snakeoil

    Tim Berne (saxofone alto); Oscar Noriega (clarinetes soprano e baixo); Matt Mitchell (piano); Ches Smith (bateria, percussão)