Aura

Camila Nebbia: “Aura” (ears&eyes)

ears&eyes

António Branco

Saxofonista, compositora, improvisadora e artista multidisciplinar, Camila Nebbia é uma figura em ascensão no panorama do jazz criativo e das músicas improvisadas de Buenos Aires e está agora a dar-se a conhecer ao resto ao globo. A sua passagem pelo Banff Centre, no Canadá, os seus dois discos anteriores em nome próprio – “A Veces la Luz de lo que Existe Resplandece Sólamente a la Distancia” (Kuai Music, 2017) e “De Este lado” (Club del Disco, 2019) –, bem como as participações como “sidewoman” noutros projetos, concorrem para atrair sobre ela justificadas atenções.

Camila estudou saxofone clássico no Conservatório Astor Piazzolla, jazz no Conservatório Manuel de Falla e Cinema na Universidad del Cine. Em 2015, ganhou uma bolsa do Fundo Nacional das Artes e dois anos depois participou em residências artísticas e “workshops” orientados por nomes de relevo como Tim Berne, Marilyn Crispell, Ben Goldberg e Ralph Alessi. Também em 2017, foi descoberta pelo compositor e diretor da editora ears&eyes, Matthew Golombisky, que a convidou para integrar a sua Tomorrow Music Orchestra e para gravar “Cuentos”, e, mais recentemente, a sua suíte “Quila Quina”. Atualmente, deverá estar a preparar-se para rumar à Estónia e participar no programa de dois anos “CoPeCo Contemporary Performance and Composition”.

“Aura” é o seu terceiro registo na condição de líder e nele é acompanhada por uma formação de dimensão alargada que agrega alguns dos melhores improvisadores que operam na cidade de Jorge Luis Borges. Camila Nebbia faz uso do completo xadrez tímbrico que tem à sua disposição (que mescla instrumentação clássica com outra mais habitual em “big bands” de jazz) para construir harmonias esdrúxulas, texturas orquestrais densas e estruturas rítmicas em permanente mutação (de notar a presença de duas baterias), com sucessivos ciclos de acumulação e libertação de tensões. A uma escrita rigorosa, na qual cada músico, cada instrumento, tem um papel bem definido na construção sonora, aliam-se doses consideráveis de liberdade no plano das improvisações para interpelar o material escrito e ligar as diferentes secções.

Exemplo maior desta abordagem é “Algunos Rastros de la Memoria”, magnífica peça com quase duas dezenas de minutos de duração e que funciona como o centro nevrálgico do disco, onde som e timbre são meticulosamente explorados. O motivo melódico principal surge nas diferentes secções em que a peça se divide, com diferentes arranjos e desenvolvimentos. De uma dessas secções soltam-se as palavras atualíssimas de Federico García Lorca na peça “Doña Rosita la Soltera o el Lenguaje de las Flores”, onde a protagonista questiona: «¿Es que no tiene derecho una pobre mujer a respirar con libertad?»

“Las Manos” é uma peça de grande intensidade onde a massa orquestral é trabalhada na sua plenitude (em termos de pujança, mas também de detalhe), através de espasmos sonoros que são bofetadas numa sociedade que discrimina e que é culpada pela opressão e violência contra as mulheres que alguns perseveram em legitimar e perpetuar (Camila dedica-a aos seus antepassados femininos).

“La Desintegración”, de cariz mais fragmentado, parte de uma pauta gráfica e utiliza técnicas de direção criadas por Butch Morris. Camila, num excelente solo, deixa claros os seus predicados enquanto instrumentista e improvisadora dotada, sempre escapando a lugares-comuns. Por seu lado, “La Quietud del Viento”, na qual se sucedem diferentes atmosferas, mais agitadas ou de singular serenidade, representa, diz Camila nas notas de apresentação, «a tranquilidade no caos». São explorados efeitos rítmicos em estereofonia (dividida a formação em duas), até que estes coalescem e dão lugar a uma improvisação coletiva que conduz à belíssima melodia final.

“Al Costado del Río” é outra peça de arquitetura complexa do ponto de vista da gestão das diferentes camadas melódicas, com súbitas mudanças de direção. Em cada solo, a intervenção de parte do grupo faz-se num tempo diferente, criando uma sobreposição de tempos que representa as diferentes «realidades e “verdades” neste mundo», revela a compositora. O derradeiro solo espoleta uma poderosa improvisação coletiva diria que inspirada em Morton Feldman, que altera novamente o curso dos acontecimentos.

Camila Nebbia surpreende com uma música multidimensional, tão cerebral como vigorosamente física, que desafia rótulos e onde cada segundo não é despiciendo. Eis uma voz criativa que desponta e nos insta a segui-la atentamente.

  • Aura

    Aura (ears&eyes)

    Camila Nebbia

    Camila Nebbia (saxofone tenor, composição); Ingrid Feniger (saxofone alto, clarinete baixo); Valentin Garvie (trompete); Daniel Iván Bruno (trombone); Damián Bolotín (violino); Violeta García (violoncelo); Juan Bayón (contrabaixo); Mariano Sarra (piano); Axel Filip (bateria); Omar Menendez (bateria); Juan Klas (direção de uma peça)