João Lencastre: “No Gravity” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Ainda há uns dias, um dos mais cativantes saxofonistas da cena nacional do jazz, Francisco Andrade, queixava-se no Facebook de que o preconceito, na música, se sente mais entre músicos do que propriamente por parte do público. Muitas vezes o verificamos, se bem que, nestes últimos anos, as coisas tenham melhorado bastante a esse nível. Além do próprio Andrade, o compositor e baterista João Lencastre é um dos que não podem ser acusados de ter os ouvidos condicionados pelo que se pode ou não fazer com o rótulo “jazz”. Mais uma vez o comprovamos com o novo “No Gravity”, desta vez partilhado com Rodrigo Pinheiro ao piano e João Hasselberg no contrabaixo, no baixo eléctrico e na electrónica.

O que encontramos é um jazz electroacústico cheio de parasitagens analógicas e digitais e abordagens quase concretistas dos instrumentos, com Lencastre a utilizar as suas baquetas tanto nas peles e nos pratos como em “pads” electrónicos, o que desde logo configura as particularidades tímbricas do álbum e o tipo de ambiências que é explorado. A música é introspectiva, inquisidora e de uma elegância formal notável, mesmo quando, ao quinto tema (“Slam Dance”), e só depois ao oitavo (“2020”), se torna mais disruptiva. As peças são, regra geral, de curta duração, funcionando como impressões à volta, ou decorrentes, de um motivo. Este é, habitualmente, muito simples, com os desenvolvimentos ou os envolvimentos, esses sim, a somarem complexidade. O papel desempenhado por Pinheiro é fundamental, com o seu muito característico pianismo a surgir como a florescência de cada situação: a ele é entregue a tarefa de substanciar e completar as composições e o músico de Lisboa fá-lo com o brilho que lhe conhecemos (e que tão criticado já foi por outros músicos menos abertos). Afirma o título que este é um universo sem gravidade e confirma-se: há uma leveza e uma elevação, uma qualidade aérea, neste disco que o singularizam. A faixa que dá nome ao conjunto é mesmo da matéria dos sonhos e apetece repeti-la incessantemente – inclusive pelo facto de recusar quaisquer proibicionismos.