I-Wolf Raon: “Baumgarten” (Seayou Records)

Rui Eduardo Paes

Nas vésperas de se juntar a João Hasselberg e Luís Figueiredo no Seixal Jazz, o harpista Eduardo Raon tem um novo álbum a circular, a meias com Wolfgang Schloegl (piano e electrónica neste “Baumgarten”), o mesmo que ouvimos com os Sofa Surfers e, em tempos, inserido no projecto Kruder & Dorfmeister. Daí o nome escolhido para identificar a parceria, I-Wolf Raon, autora de uma música electroacústica que só não podemos caracterizar como ambiental porque é imersiva. Correcção: também porque tem um carácter exploratório (timbres, estruturas, etc.) que não é contemplado por aquela corrente que identificamos com Brian Eno, e porque, apesar de toda as parasitagens sonoras de feitura digital, está centrada no entrosamento dos instrumentos tocados por Raon e Schloegl.

Se a combinação de uma harpa e de um piano nos remete inapelavelmente para a música de câmara, é bem outro o universo habitado por esta música – é impossível saber até que ponto a improvisação foi um processo adoptado para a produção deste disco, mas o carácter orgânico dos temas leva-nos a crer que está bem presente. Bem longe estamos do trip-hop dos Sofa Surfers e do dub / downtempo dos Kruder & Dorfmeister, estando também estes temas bastante distantes da “improv” desalinhada da matriz free jazz praticada pelo Powertrio de Raon com Joana Sá e Luís José Martins: a abordagem aqui é outra e tem um contexto imediatamente perceptível, o da música experimental que por estes dias está a ser feita na Áustria e, em particular, na cena de Viena, de que Schloegl é uma referência. O belo e o estranho convivem nestas peças especialmente inventivas, desmentindo quem acha que a pandemia deprimiu a criatividade. Ora ainda bem. A música sobreviveu ao apocalipse.