Quarteto Ricardo Jorge: “Nature is Always Photogenic” (Profound Whatever)

Rui Eduardo Paes

Não sendo este um novo álbum dos muito aplaudidos Slow is Possible, em “Nature is Always Photogenic” encontramos a maior parte dos membros do grupo-surpresa destes últimos anos: João Clemente, Nuno Santos Dias, Ricardo Sousa e Duarte Fonseca. Enquanto “side project”, encontramos alguns pontos em comum com a formação original, mas tudo o mais o diferencia. O eixo dos temas desloca-se do jazz para o rock, sem o dito jazz desaparecer das panorâmicas (atenção ao Fender Rhodes milesiano de “Obvious Target” ou ao piano ceciliano de “The Arbitrariness of the Sign”), e o factor experimental multiplica-se pelos vários pontos de perspectiva. Em dado momento tanto podemos ouvir algo que parece um country-rock com intromissões de electrónica exploratória, como em outros se desemboca em “riffs” que tanto derivam do stoner mais rotundo como do “prog” sofisticado de uns King Crimson. Quando chegamos à última peça, “Magnificent Airfield”, verificamos o quanto esta música faz sentido em rede com outras práticas: por aqui andam também os franceses Psychotic Monks.

Tudo isto numa sucessão de situações que mais obedecem às lógicas de montagem do cinema do que às convenções de como construir uma canção. Pode haver por aqui menos nuances e subtilezas (e menos assimilações de determinados aspectos da música erudita) do que em Slow is Possible, mas quando chegamos à magnífica sexta faixa, “Ongoing Ritual”, já estamos rendidos: é como se na mesma trama convivessem Tangerine Dream e Om, coisa que nem lembraria ao diabo. O nome Quarteto Ricardo Jorge parece de grupo de baile, mas dá-nos uma indicação imediata do tipo de atitude que é colocado em prática: não se trata propriamente de humor (a música consegue, por vezes, ser algo “dark”), mas de irreverência. Estes rapazes vieram a público para subverter conceitos instalados e picar-nos os miolos. Bem hajam.