Marie Takahashi / Maria do Mar / Ernesto Rodrigues / Helena Espvall / João Valinho: “Queen Triot” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Há discos em que o engenheiro de som é como se fosse um dos elementos do grupo que está a tocar. Este é um deles. “Queen Triot” foi gravado em estúdio (Namouche) por Joaquim Monte e o que ouvimos mais parece ter sido registado num local “site specific” com uma acústica reverberante natural. Quando se procura dar tal impressão, é regra geral possível detectar a artificialidade dos processos, mas não aqui: ouvimos os instrumentos (um violino, duas violas, um violoncelo + percussão ou piano) e o espaço em torno deles, para além da forma como o espaço molda o que esses instrumentos vão fazendo. Dar um destaque ao trabalho de Monte neste álbum deve-se também a dois factores implícitos, mas que podiam não ter sido cobertos, pelo menos desta maneira: o seu trabalho na misturadora sublinhou as duas linhas-mestras da música que aqui é tocada.

Uma dessas linhas-mestras é a presença: ouvimos o mais pequeno detalhe dos materiais que cada interveniente introduz, de tal modo que mesmo as maiores subtilezas ganham uma inesperada clareza (nunca em prejuízo das dinâmicas, saliente-se). A outra é ainda mais entusiasmante: da acção conjunta dos cinco músicos surge um efeito de fantasmização que não só nos confirma que, na criação musical improvisada, os resultados são mais do que a soma das partes, como nos dá uma panorâmica iminentemente plástica, ao nível de um trabalho de perspectivação que funciona por alternância ou por sobreposição de planos, tirando ao elemento tempo a matriz dos desenvolvimentos para reforçar o elemento espaço. Este tipo de explorações com o uso de cordofones já vai sendo de esperar por parte de Ernesto Rodrigues, mas é especialmente gratificante saber que esse interesse investigativo é partilhado pelas três figuras da cena nacional que com ele aqui encontramos, Maria do Mar, Helena Espvall e João Valinho. A participação da violetista berlinense de origem nipónica Marie Takahashi, conhecida sobretudo pela sua actividade como intérprete de música barroca, é a cereja no topo do bolo.