Valentin Ceccaldi: “Ossos” (Cipsela)

Rui Eduardo Paes

Este é um disco a solo de Valentin Ceccaldi, um dos “enfant terribles” da actual cena gaulesa da improvisação, gravado em Coimbra já faz uns anos (2017) e agora finalmente disponibilizado. E se um disco a solo de um improvisador é sempre algo de especial, pois só os mais habilitados dominam o formato, este “Ossos” coloca em evidência que não é apenas um instrumento o que um músico toca: toca também a sua personalidade, a sua identidade, a sua história, a forma como está no mundo, o que o move e o que pretende alcançar. Neste registo, encontramos o violoncelista a corpo inteiro. A música que se ouve vai para além da música, é mais do que música, torna-se numa questão existencial. Quando essa condição meta-musical coincide, como aqui acontece, com o propósito de ir até ao osso da música (e daí o título), lidando directamente com o som, o som bruto, puro, infra-musical, encontramos os únicos dois verdadeiros alicerces da práxis artística que tem o momento como condição. Por outras palavras: quem pretende perceber o que é improvisar, tem neste álbum um excelente “estudo de caso”.

São três as peças improvisadas incluídas, “Enclume”, “Marteau” e “Étrier”, todas elas um deleite para os ouvidos que não se deixaram conformar pelas práticas musicais hegemónicas, incluindo as que são habitualmente catalogadas como “improv” ou “jazz”. Valentin Ceccaldi descola-se de todas as vias já codificadas e procura o seu próprio caminho, alheio a convenções ou conveniências. Nesse processo, alia o cru com o belo jogando com as nossas percepções (culturalmente adquiridas) do que é uma coisa ou outra. Vira os nossos pré-conceitos de pernas para o ar, provoca-nos (ainda que de modo não confrontacional) e desafia-nos sem instigar, numa suave, mas permanente, titilação dos sentidos. Dos sentidos no plural, que não apenas o da audição, pois ficamos cientes de que a unidade corpo-mente é inteiramente convocada.