Rafael Toral / Mars Williams / Tim Daisy: “Elevation” (Relay Recordings)

Rui Eduardo Paes

Os relacionamentos de Rafael Toral com a chamada “cena de Chicago” (a do jazz criativo, do rock desalinhado, do experimentalismo sem nome) surgiram com a sua ligação a um filho dilecto da Cidade do Vento que depois foi em busca de outras paragens (vive presentemente no Japão), Jim O’Rourke. Outros dois chicagoanos, Mars Williams e Tim Daisy, surgem nesta gravação realizada em 2017 no Experimental Sound Studio de Chicago e a primeira impressão que tiramos ao ouvi-la é a forma como o músico de Lisboa mergulha tão bem na “Chicago way”. “Cirrus”, a segunda peça do conjunto, soa a algo que o Art Ensemble of Chicago e mesmo a Sun Ra Arkestra, que teve Chicago como sua primeira morada, poderiam ter criado. A ligação às raízes da AACM é, pois, neste álbum bem evidente.

Toral surge no disco em dois planos. Ora o temos à frente, em interacção com os saxofones de Williams, dando pleno uso à forma particular como toca os seus dispositivos electrónicos (no caso um oscilador de eléctrodos  e pequenos amplificadores por si modificados), com as respirações de um instrumento de sopro a definirem o tipo de fraseio, ora o encontramos a ocupar o lugar central do trio e o eixo da música, situando-se entre a percussão de Daisy e as palhetas de Williams, tal como o faria uma guitarra ou um piano não especialmente preocupados com as convenções harmónicas. De um modo ou de outro, estamos em pleno território do free jazz, numa rara conciliação entre a história deste e as suas presentes (re)configurações. Em “Altostratus” a música ferve e sim, ganha a elevação que é prometida pelo título e que tão celebrada é pelos amantes da “fire music”. Para além de nos deleitar, esta edição tem o “surplus” de nos demonstrar que uma atenção ao passado não tem de ser nostálgica, com as referências a serem tratadas como matéria-prima de algo de novo que se vai acrescentando.