Continental Drift

Larry Ochs / Aram Shelton Quartet: “Continental Drift” (Clean Feed)

Clean Feed

Gonçalo Falcão

Ainda quente, acabado de sair do forno, escrevo sobre o novo lançamento da Clean Feed, um disco que roca repetidamente no meu leitor de CDs. É um quarteto na instrumentação, mas na verdade um quinteto, dado que Mark Dresser e Scott Walton tocam contrabaixo alternadamente. A música vem da América, tem um passo forte e afirmativo e boas ideias. Para esta máquina de força e intensidade, muito contribui o baterista sueco Kjell Nordeson, que é capaz de manter os bombos apressados e simples. O sueco dos Angles é muito bom, já o sabíamos, mas nesta gravação está no seu melhor e parece ser ele, com Dresser, quem mantém o motor sempre ligado e nos foca na música.

“Continental Drift” é uma referência à teoria da deriva continental, formulada no século XVI e desenvolvida no século XX, que afirma que os continentes, hoje separados por oceanos, eram unos no início da formação da Terra numa massa denominada “Pangea” (Miles Davis já andou por aqui). Fala, por isso, da viagem lenta e impercetível de grandes massas que no início eram uma só. A metáfora parece apropriada, mas lentidão há pouca por aqui. Conseguimos sentir sempre uma estrutura inicial forte, uma canção, que se desmaterializa pela improvisação e se afasta da solidez do corpo inicial, do qual guarda memórias, mas que se constrói como um mundo independente.

A música deste quarteto tem dois tipos de atracções: a primeira é a forma global, as melodias escritas por Shelton e Ochs: muito boas. A segunda é interior, ou seja, o modo como estas músicas são apropriadas pelo grupo e dão espaço para que cada um deles contribua com solos ou ideias musicais interessantes. Partem de uma abordagem jazzística tradicional, mas usam a atitude dos improvisadores livres, saindo por vezes muito para fora da lógica expectável.

Ochs e Shelton são de duas gerações muito diferentes, com dois passados e mundos musicais igualmente distintos. O “old-timer” Ochs notabilizou-se no ROVA, o quarteto de saxofones mais emocionante do final da década de 1970 (quando estas formações começaram a aparecer). Shelton, 20 anos mais novo, é membro ativo da cena de Chicago. Navegou a onda do pós-rock com os Tortoise e tocou com o génio dos efeitos e processamentos da guitarra, Henry Kaiser.

A história do disco é uma crónica longa de vontades e impedimentos: Shelton saiu de Chicago e chegou à Bay Area em 2005 e Ochs achou que os dois se convinham musicalmente. Mas o que parecia fácil complicou-se e “Continental Drift” resulta de duas sessões separadas por cinco anos. A primeira em 2013, ocasião em que foram gravados todos os temas do CD, excepto um. Depois de ouvida a gravação, Ochs achou que “The Others Dream”, a última faixa do disco, não estava em condições. Em 2016, Shelton mudou-se para Copenhaga e Mark Dresser e Kjell Nordeson instalaram-se em San Diego. Só em 2018 foi possível reunir novamente o quarteto em São Francisco, colocando Scott Walton como responsável pelo contrabaixo. Regravaram a última música e a coisa correu tão bem que experimentaram refazer também “Continental Drift”. Valeu a pena e as duas entraram para esta edição.

O disco tem um grande som de grupo, com todos os instrumentos em primeiro plano e a bateria e o contrabaixo extremamente presentes, marcando um andamento forte e intenso. “Slat” é talvez o melhor exemplo de quando entram em modo “velocidade furiosa”, nunca perdendo o sentido musical ou derivando para o noise. Está muito bem gravado e tem imensos momentos surpreendentes. “Anita” é o oposto, uma canção lenta, belíssima, escrita por Shelton, talvez o único lugar no disco em que há uma respiração vagarosa, pois desde o início que a ideia é a de andar rápido: as placas tectónicas podem ser lentas, mas o mundo anda depressa. A secção rítmica, já o dissemos, é o que nos mantém presos à música e responde lindamente às voltas que a improvisação vai dando. Está sempre atenta e muda de direcção e andamento com velocidade telepática.

Resta-nos desejar que o facto de estes músicos terem carreiras individuais muito preenchidas não os impeça de se fazerem ouvir ao vivo. Dão um bom exemplo de testagem das fronteiras de um género musical.

  • Continental Drift

    Continental Drift (Clean Feed)

    Larry Ochs / Aram Shelton Quartet

    Aram Shelton (saxofone alto); Larry Ochs (saxofones tenor e sopranino); Kjell Nordeson (bateria); Mark Dresser (contabaixo nas faixas 1-3 e 5 -7); Scott Walton (contrabaixo nas faixas 4 e 8)