85bears

Greg Ward, Jason Stein, Matt Lux, Marcus Evans & Chad Taylor: “85bears” (ears&eyes)

ears&eyes

António Branco

Quando vários dos nomes mais destacados na cena do jazz aventuroso de Chicago se juntam, as expetativas estão naturalmente nos píncaros. A formação assim constituída (batizada em homenagem à equipa local de futebol americano, os Chicago Bears, que venceu o Super Bowl referente à época de 1985) agrega os predicados do saxofonista Greg Ward, do clarinetista Jason Stein, do baixista Matt Lux, e, alternadamente, dos bateristas Marcus Evans e Chad Taylor.

O que desde logo ressalta claro no som do grupo é a judiciosa articulação que se estabelece entre as fortes individualidades em presença e no modo como estas funcionam sinergeticamente e potenciam as dos demais, para criar um som coletivo coerente e desafiante, sem que o ouvinte possa antecipar o que se vai passar a seguir, o que só pode ser bom.

O registo, com uma duração total um pouco superior a quatro dezenas de minutos, é constituído por um conjunto de pequenas peças em formato eletroacústico (mais acústico do que “eletro”, diga-se em bom rigor), muitas delas intituladas em homenagem a figuras dessa lendária equipa da Windy City. Fica exposto o propósito de transmitir a mensagem da forma mais concisa possível, sem necessidade de a estender desnecessariamente, preservando o sentido de urgência e a espontaneidade do processo criativo.

As três peças inaugurais são exemplarmente apresentadas em menos de cinco minutos. A primeira delas, “Lament For Sweetness” (dedicada a Walter Payton, famoso “running back” da equipa, por alguns considerado um dos expoentes máximos da história deste desporto) é marcada pelo saxofone em registo bop de Ward, que plana sobre os “samples” atmosféricos propostos por Evans. “Samurai Singletary” (Michael Singletary, valoroso “linebacker”) mostra Ward e Stein em telepática interação, espinha dorsal, aliás, da generalidade das peças.

“Wilbur”, a única peça gravada originalmente sem bateria, conta com um “drive” diabólico adicionado dois anos depois por Taylor. “Willie G”, o tema mais longo, começa com os sopros num jogo de aproximação e distanciamento, com a secção rítmica a acrescentar densidade. Saxofone e clarinete baixo deambulam com vagar, desenhando linhas num crescendo de intensidade.

Em “Otis” é o clarinete baixo flamejante de Stein que ganha proeminência. “William Perry” mostra um novo vibrante diálogo entre os sopros, com espaço para Lux e Taylor nele se imiscuírem, evoluindo para um contagiante “groove” final. O hiperativo “Gault” assenta nas linhas sinuosas dos sopros, em comunicação com o baixo elétrico aracnídeo e a bateria torrencial, arquitetura sónica que se mantém no pós-bop efervescente parada-e-resposta de “Fenick”. Contraste absoluto com a peça seguinte, “Suhey”, de melodia lamentosa esquiçada por Ward, que funciona como uma espécie de antecâmara para a atmosfera mais exploratória de “Butler”.

Os blues intensos de “Soldiers Feel” encerram uma jornada com muitos pontos altos. Esta é música excitante e vigorosa, que tanta falta faz para alimentar a resiliência à escuridão.

  • 85bears

    85bears (ears&eyes)

    Greg Ward / Jason Stein / Matt Lux / Marcus Evans / Chad Taylor

    Greg Ward (saxofone alto); Jason Stein (clarinete baixo); Matt Lux (baixo elétrico, percussão); Marcus Evans (bateria, MPC); Chad Taylor (bateria)