Ctu Telectu

Telectu: “Ctu Telectu” (Golden Pavillion Music)

Golden Pavillion Music

Gonçalo Falcão

Disse Edgard Varèse que «há sempre uma incompreensão entre o compositor e a sua geração». Segundo o compositor, «a circunstância é habitualmente explicada com a ideia de que o artista está avançado em relação à sua época, o que é um absurdo – o artista é sempre uma testemunha do seu tempo, pelo que é o público que está atrasado uns 50 anos». “Ctu Telectu” é um bom exemplo de um disco que esteve em desacordo com o público do seu tempo e é um documento singular de uma vontade de criação original.

A história desta edição começa em 1982, um pouco antes de o disco com a capa de um tigre em ácidos (da excelente autoria de Fernanda Gonçalves e José Cruz e Silva) estar à venda. Temos de recuar uns meses, ao momento em que “Independança” começou a circular. O lado B do primeiro disco dos GNR – Grupo Novo Rock - foi ocupado por uma só faixa chamada “Avarias”. Só este facto, na altura, é espantoso: como é que uma “major” que domina o mercado nacional permite que uma banda que tocava rock de três minutos ocupe 26 e um só lado de um LP? E porque é que a banda que tem canções como “Portugal na CEE”, “Espelho Meu” e “Sê Um GNR” inventa esta música, que está no melhor do seu tempo?

“Independança”, para quem ainda não ouviu bem, é, ainda hoje, um incrível disco de pop-rock, não só no plano nacional – contexto em que é indiscutivelmente uma raridade –, mas também em outras latitudes. E não é só “Avarias”: os outros temas, “Agente Único”, “O Slow que Veio do Frio”, “Dupond & Dupond” e “Hardcore” são todos óptimos e estavam a par do que de mais interessante faziam Talking Heads, James White & The Blacks e outras bandas da new wave americana. “Independança” e, em particular, “Avarias” têm o toque de Jorge Lima Barreto, que tira a banda do rock pastilha-pastiche e passa-a para o terreno experimental. É este o chamiço que abrirá a porta para “Ctu Telectu” e para a saída de Rua dos GNR, à procura de um verdadeiro e não pasteurizado novo rock.

Designado por Ctu Telectu em alusão a um poema de Ernesto Melo e Castro (“in telectu al”), o novo grupo neste primeiro impulso é um quarteto com Tóli César Machado na bateria, Vítor Rua na guitarra e no baixo, Jorge Lima Barreto nos sintetizadores e no piano e Dr. Puto (José Carlos Militão) na voz. É um disco filho único: nunca saberemos o que teria acontecido se tivessem convidado Rui Reininho para cantar e Alexandre Soares para tocar guitarra e os GNR tivessem continuado a explorar este rock tão arrojado e único sob a liderança de Rua e Barreto. Mas nem todos os Novo Rock queriam largar a música ligeira e por isso este “se” ficará para sempre interrogativo.

A realidade é que, em 1982, a EMI Valentim de Carvalho permite que a nova banda de Vítor Rua vá um mês para estúdio, grave e edite esta música. De tanta improbabilidade sai um disco agitador que tem já o princípio do que virão a ser os Telectu de “Belzebu”, mas que ainda é um “Avarias” menos geométrico. Em termos musicais e de inovação é comparável a “My Life in the Bush of Ghosts” de Brian Eno e David Byrne. “Ctu Telectu” foi rapidamente engolido pelo Portugal dos pequenitos e transformou-se num objecto de colecção com preços proibitivos. No “A Arte Eléctrica de Ser Português: 25 Anos de rock'n Portugal”, António Duarte escreveu: «Os músicos perderam muito tempo a passar receitas ao público em vez de o conquistar para a saudável profilaxia da novidade e da inovação».

Em “Ctu Telectu” a profilaxia rock começa por deixar ouvir a repetição, elemento estruturante, bem como os ciclos que já se anunciavam em “Avarias” e que se solidificarão em “Belzebu”. Este elemento, somado à exploração dos sons electrónicos, faz com que seja uma obra perfeita para marcar a passagem de Vítor Rua, “Piloto do Futuro”, do universo do rock para outros planetas musicais muito mais inexplorados. Como bem escreveu Rui Miguel Abreu no texto que acompanha esta nova edição, este é «um disco em que claramente confluíram passado, presente e futuro». O passado dos GNR, que estavam num caminho de experimentação para fugir ao triste destino de serem uma versão nacional de alguma coisa estrangeira. O presente de um tempo – 1982 – em que uma novíssima geração portuguesa ganhava mundo e saía de um país onde o preto era a cor. O futuro, esse, seria representado pela música “minimal repetitiva”, designação inventada por JLB a partir da junção das ideias francesa – “musique répétitive” – e americana – “minimal” (isto porque nem o repetitivo tem de ser minimal nem o minimal, repetitivo).

Passemos à música. O baixo e a bateria têm o papel principal. No início do disco o baixo e a guitarra estão no cimo da música. O primeiro com linhas repetitivas e dançáveis, a segunda definindo melhor as linhas melódicas. Nos temas finais serão os arpejos do sintetizador a construir os ciclos. A bateria é a única constante, mantendo o ritmo e a ligação ao universo do rock, ou melhor, do que hoje chamamos “art-rock” ou “indie-rock”. Toli César Machado toca como os melhores bateristas dos anos 1980, arrojo que desaparecerá no bater mais previsível da segunda encarnação dos GNR. Os sintetizadores estão num mundo à parte, autónomo, aparentemente desligados da estrutura sólida construída pela secção rítmica. Flutuam por ali, criando um sinusoidal electrónico que não respeita qualquer regra tonal. Ouve-se também a improvisação gestualista de Lima Barreto no piano, em sacões anárquicos à Cecil Taylor. Rua, para além das bases rítmicas, sola na guitarra com um som ácido lindíssimo (remetendo-nos para o Robert Fripp de “Indiscipline”).

A voz está no fundo, com um cantar-gritar vago, disperso, como se estivesse na casa de banho do estúdio de gravação. Ouvimos umas falas transformadas pela distância, o que foi um repensar audacioso da ideia de “vocalista”. Rua é um músico com uma intuição especial e este disco usa-a no seu melhor. Outra das suas qualidades é o querer fazer e, nesse sentido, muitas destas soluções radicam na estupenda combinação entre uma intuição afinada e a determinação em do nada fazer alguma coisa.

Está muito bem tratada esta “trip” de rock experimental agora reeditada em LP pela Golden Pavillion, remasterizada para vinil a partir das bobinas originais. O disco já tinha sido reimpresso em CD, mas esta edição é outra conversa. O som está magnífico, o longo texto dá uma boa contextualização sobre aquele tempo, e a capa, a “inner sleeve” e a rodela preta estão bem trabalhadas (não são iguais às da edição original, que surgem com variações cromáticas). É, claramente, uma edição feita por quem gosta de música. Podemos contar pelos dedos de uma mão os discos que foram essenciais para o desenvolvimento da imaginação musical portuguesa. Este é um deles, tendo soado estranhíssimo no seu tempo e continuando a ser ousado passados quase 40 anos. A crer em Edgard Varèse, daqui a 10 anos o público irá conseguir compreendê-lo melhor. Sim, há um rock sem tempo, fora do tempo.

  • Ctu Telectu

    Ctu Telectu (Golden Pavillion Music)

    Telectu

    Vítor Rua (baixo eléctrico, guitarra eléctrica); Jorge Lima Barreto (sintetizadores, piano); Toli César Machado (bateria); Dr. Puto (voz)