Strell – The Music of Billy Strayhorn & Duke Ellington

Who Trio: “Strell – The Music of Billy Strayhorn & Duke Ellington” (Clean Feed)

Clean Feed

Gonçalo Falcão

Reduzir a dimensão orquestral de Duke Ellington a um trio pode parecer uma tarefa tão difícil como tocar o “Das Rheingold” em piccolo. É uma tarefa pesada, mas pode ser feita: o próprio Ellington gravou em “Money Jungle” os seus temas para trio de piano, contrabaixo e bateria (ele, Charles Mingus e Max Roach: mais que um trio, um triunvirato) ou em “Piano Duets” com dois pianos e um contrabaixo. Se a possibilidade existe e se já foi concretizada, vem a pergunta seguinte: para quê? Para quê pintar novamente o “Guernica” ou o “Victory Boogie Woogie” de Mondrian? Que novas perspectivas ou ideias surgirão ao reinterpretar temas como “The Mooche”, “Take The A Train” ou “Fleurette Americaine” em trio, com a mesma instrumentação de “Money Jungle”, piano, contrabaixo e bateria?

A magniloquência de Ellington explicou o jazz. Há um jazz de antes de Ellington / Strayhorn e um de depois. Os anos 1930 e 40 são aquelas músicas. Por isso é preciso ter tomateiros para pegar neste material e relê-lo. Para desinventar estas canções a solução encontrada por Michel Wintsch (piano), Bänz Oester (contrabaixo) e Hemingway (bateria) foi a de reduzir e procurar uma essência. O anjo da Ellingtonia. Para além das músicas que já referimos ouvimos outros temas iconográficos (“Fleurette Africaine”, “In A Sentimental Mood”, “Black and Tan Fantasy”), com outros mais discretos como “A Flower is a Lovesome Thing” (1946), “Passion Flower” (1954), “In a Mellow Tone” (1956) e “Angelica” (1963).

Nas décadas de 30 e 40 do século passado a música de Duke Ellington era difícil: os músicos trabalhavam horas a fio, tocavam em condições precárias, entravam pela porta dos fundos, segregados por serem negros, o dinheiro era pouco. Mas a música era solaz, afirmativa, brilhante como os metais dos instrumentos. Fardados como “gentlemen” e alinhados com a alegria de uma equipa olímpica que limpou facilmente a medalha de ouro, a música dava esperança e criava um mundo onde o racismo, a miséria, a discriminação e a violência não existiam. Um mundo de “shear beauty”. Ouvi-la tocada assim, minguada, crua, frágil, sem força, fala-nos de uma realidade onde não queremos estar. Se calhar fala a verdade, fala deste tempo e do apagamento de pilares que achávamos inabaláveis e somos nós que não o queremos ver.

A minha magra classificação pode dever-se a esta recusa, mas também considera outro factor: o disco oscila demasiado entre releituras fabulosas, que trazem as canções para a precariedade do século XXI, e soluções estranhas que parecem deslocadas, como a percussão a trote em “Take The A Train” ou o quase desaparecimento da melodia em “Fleurette Africaine”.

  • Strell – The Music of Billy Strayhorn & Duke Ellington

    Strell – The Music of Billy Strayhorn & Duke Ellington (Clean Feed)

    Who Trio

    Michel Wintsch (piano); Bänz Oester (contrabaixo); Gerry Hemingway (bateria, voz)