Totem

¡Golpe! & Masa Kamaguchi: “Totem” (Robalo)

Robalo

António Branco

Apenas quatro meses volvidos desde o estupendo “Tundra” (disco de material completamente improvisado que tem como convidado especial o guitarrista André Matos), eis que o duo ¡Golpe! – formado pelo trompetista Gonçalo Marques e pelo baterista João Pereira – regressa para o seu terceiro álbum (todos editados no espaço de ano e meio pela Robalo), “Totem”. Marques está solidamente entre os mais relevantes trompetistas nacionais dos últimos anos e Pereira já se destacou como baterista inteligente e dono de uma abordagem flexível, capaz de se adaptar com diferentes contextos. Os dois (mais companhia) aventuram-se denodadamente naquele que é um formato instrumental particularmente exigente e desafiador.

Sendo músicos com trajetórias distintas, partilham uma forma particular de conceber a criação musical, trabalhando a matéria-prima – o som – até que esta tome forma, concreta ou abstrata, como se de argila moldável de tratasse. O propósito é enunciado pelos próprios: «Musicalmente, talvez o que procuremos seja um equilíbrio entre as diversas polaridades em que a música se organiza e também a expressão de um percurso pelas contradições que todos encerramos e que se manifestam em tempo real quando improvisamos.»

Dando continuidade a uma prática de convidar um terceiro músico que vem desde o primeiro disco (“Puzzle” tem como convidado o pianista Jacob Sacks), o duo surge pela primeira vez em disco sem o suporte de um instrumento harmónico, sendo desta feita acompanhado pelo contrabaixista norte-americano Masa Kamaguchi. Respeitada figura da cena internacional (Frank Kimbrough, Ben Monder, David Murray, Tony Malaby, Charles Gayle, Alex Harding e Russ Lossing, entre inúmeras outras colaborações), movimenta-se com idêntico à-vontade tanto em domínios convencionais como quando experimenta maiores liberdades. Incorporando com facilidade o “modus operandi” conceptual do duo (com quem toca há vários anos), Kamaguchi acrescenta tons graves à paleta sónica, fazendo com que a música tome rumo distinto.

O novo álbum convoca para título a palavra “totem”, que, diz-nos o cada vez mais solitário dicionário, significa um animal, planta ou (menos frequente) objeto que, na mitologia de determinados grupos sociais, é considerado um antepassado ancestral capaz de proteger e orientar os seus membros e com o qual é possível estabelecer uma ligação. «Pensámos que havia qualquer coisa de ritualístico no tema, sentimos que a presença do contrabaixo trazia essa ligação à terra e a qualquer coisa de sagrado, no sentido mais primordial», explica a dupla.

São oito as peças, divididas quase equitativamente por Marques (quatro) e Pereira (três), gravadas em dezembro do ano passado no auditório da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. O álbum inicia-se com duas do trompetista. Primeiro, “Snakes and Ladders”, na qual o trio reitera o seu conhecido apreço pela exploração do detalhe, pela atenção à minúcia, com o trompete do líder em destaque pelas linhas elegantes que desenha. Segue-se “Fake Folk”, deliciosa vinheta marcada pela serenidade majestosa do trompete. “Chovamos” é introduzida longamente pelo contrabaixo, a que se juntam a bateria e o trompete com surdina, naquela que porventura será o mais “milesiano” dos temas aqui incluídos.

O que dá título ao CD, da autoria do baterista, na sua dezena de minutos de duração, é montra perfeita para as interações a três, explorando diferentes ângulos. Marques trabalha o âmago do seu instrumento com renovada inventividade e João Pereira oferece-nos um longo (e ótimo) solo. “Casa na Árvore” é um superior exercício de recato e “You Are All The Things”, outra peça da autoria do baterista, é vagamente inspirada no desgastado clássico de Jerome Kern. O trompetista assina mais uma prestação soberba, suportada pela solidez do contrabaixo (o qual, estando tão presente, paradoxalmente se torna quase “invisível”) e pelo formidável balanço imprimido pelo baterista (outra notável prestação).

Da leitura de parte do “Noturno” em dó sustenido menor (n.º 20) de Chopin (obra composta em 1830) exala um negrume palpável e “Antípoda” (de alguma forma no oposto emocional da peça anterior) encerra o disco numa toada lenta, mas eivada de um otimismo luminoso. «Todos procuramos serenidade, ainda mais nos tempos que correm», confessam Gonçalo Marques e João Pereira com inteiro acerto. Com “Totem”, o duo ¡Golpe! dá mais um passo na consolidação de um posto entre as mais interessantes formações do jazz nacional da atualidade.

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    Totem (Robalo)

    ¡Golpe! & Masa Kamaguchi

    Gonçalo Marques (trompete); Masa Kamaguchi (contrabaixo); João Pereira (bateria)