The Mothers 1970

Frank Zappa: “The Mothers 1970” (Zappa Records / Universal)

Zappa Records / Universal

Gonçalo Falcão

A vida oferece-nos tantas razões para sermos felizes! No meio da pandemia, com tudo parado e em casa, eis que aterra a caixa “The Mothers 1970”, com quatro discos lá dentro, recheadinhos de coisas extraordinárias. A edição comemora o 50º aniversário da formação de 1970 dos Mothers of Invention, um “line-up” que durou apenas sete meses, mas deixou muita coisa boa e uma ideia de banda para o futuro. Estes novos Mothers começaram a ensaiar em Maio de 1970 e em Dezembro o baixista Jeff Simmons deixou a banda. Durante estes oito meses, Zappa conseguiu colocá-los em estúdio duas vezes e mantê-los “on the road” na América, no Canadá e na Europa.

Contextualizemos: Frank tinha acabado de desmantelar a versão original dos Mothers of Invention (Jimmy Carl Black, Roy Estrada, Ray Collins, Elliot Ingber, Don Preston, Bunk Gardner, Ian Underwood) e lançado “Hot Rats”, o disco que inauguraria o “jazz de fusão” ou a ligação entre rock e jazz no seu melhor. Estava a trabalhar num projecto para um filme (“Uncle Meat”, que nunca foi feito). O maestro Zubin Mehta propõe-lhe uma colaboração com a Los Angeles Philharmonic num projecto de fusão de música orquestral (que viria resultar no “200 Motels”). Howard Kaylan e Mark Volman, membros dos Turtles, foram ter com Zappa e propuseram-lhe fazer parte dos Mothers. Estavam envolvidos num enorme imbróglio legal com a sua editora devido ao “hit single” “Happy Together", que deu origem à famosa sequência teatral “What Kind of Girl Do You Think We Are / Bwana Dik / Happy Togheter”). George Duke estava a tocar com Jean Luc Ponty, que se tinha interessado pela música de Zappa, o que resultou em “King Kong: Ponty Plays the Music of Frank Zappa”. Os dois conheceram-se nesse contexto e Duke ficaria com Zappa até 1978 (com colaborações pontuais até 1981). Jeff Simmons começou a trabalhar com Frank Zappa em 1969. Ian Underwood foi o único membro dos MOI originais que ficou.

Os Mothers de 1970 têm mais rock, muito mais vocais (dado que têm o duo Kaylan / Volman na frente a cantar) e um humor mais sequencial, quase teatral. Contudo, ainda conseguimos ouvir várias peças intrincadas, escritas no espírito de “Hot Rats”, com uma grande complexidade instrumental. A guitarra de Zappa descobre um dos seus melhores sons, com o “wah-wah” a modelar e a distorção cortante que vem de “Hot Rats”. Parece o som de uma máquina de barbear musical.

A música que vem guardada nesta caixa foi laboriosamente coleccionada por Joe Travers, o conhecido “Vaultmeister” (Zappa gravava quase tudo o que fazia, e mesmo sons e episódios que iam acontecendo nas “tours”, e guardava os registos numa cave – The Vault – de onde têm sido extraídas estas pepitas; Joe Travers é o arqueólogo que anda a escavar e a catalogar estes milhares de bobinas). A vontade de fazer um disco ao vivo da banda de 1970 esteve sempre nos planos de Zappa, mas nunca aconteceu. Alguns destes temas foram aparecendo em “Playground Psychotics”, “Road Tapes” e nos seis volumes duplos de “You Can’t Do That on Stage Anymore”. Mas agora, pela primeira vez, temos a obra completa (ou quase, pois algumas das gravações não eram recuperáveis) dos Mothers de 1970.

O primeiro CD capta as gravações feitas em Londres, no Trident Studios, a 21 e 22 de Junho, com Roy Thomas Baker sentado na consola (Queen, Rolling Stones, David Bowie, The Who, T. Rex, “you name it”...). Era a primeira vez que esta banda ia a estúdio (a segunda seria em Agosto e foi quase tudo para o álbum “Chunga’s Revenge”. Tudo muito bem gravado e com muitas músicas inéditas e um som fantástico de banda.

Os outros três CDs da caixa são gravações ao vivo. O segundo na Holanda e em San Rafael, na Califórnia. A segunda parte, gravada na América, está perto do que viria a ser o “Filmore East”. O terceiro disco contém temas captados no Santa Monica Civic Auditorium, também na Califórnia, e em Spokane, Washington. Foi sujeito a um grande trabalho de restauro, pois as bobinas originais tinham vários problemas no estéreo e o gravador avariou, descontrolando a velocidade. Valeu a pena, pois contém materiais preciosos, desde um trecho pequeno do “Agon” de Stravinsky a “Eat it Yourself” e temas como “A Series of Musical Episodes”, “Road Ladies” e “The Holiday Inn Motel Chain”. O disco quatro integra registos realizados por Zappa ao vivo, directamente, num gravador portátil. O UHER andava com ele para todo o lado e conhecemos já algumas destas gravações em camarins e aeroportos, porque foram sendo integradas nos LPs e depois em “Playground Psycothics”.

Resumindo: mais uma despesa para este ano difícil. Muita música nova e boa de ouvir, de uma banda que durou pouco tempo, mas que lançou o embrião para “Chunga's Revenge”, “200 Motels, “Waka Jawaka”, “The Grand Wazoo” e “Just Another Band From L.A.”. Aproveito a missiva para avisar quem gosta de preparar “wish lists” de Natal com antecedência: o fim do ano trará mais uma caixa da série “Haloween”, a terceira, que contém as gravações integrais dos concertos deste período festivo (normalmente três ou quatro noites seguidas em Nova Iorque). As gravações de 1973 e 1977 são excelentes e imprescindíveis. Anuncia-se a de 1981, com a banda de “Tinseltown Rebelion” (Scott Thunes, Chad Wackerman, Robert Martin, Ray White, Ed Mann, Tommy Mars (“on keyboards and Jeeeeeesus”) e Steve Vai. “Music is the Best”.

  • The Mothers 1970

    The Mothers 1970 (Zappa Records / Universal)

    Frank Zappa

    Frank Zappa (guitarra eléctrica, voz, composição); Howard Kaylan, Mark Volman (vozes); George Duke (piano, teclados, trombone); Ian Underwood (órgão, teclados, guitarra eléctrica); Jeff Simmons (baixo eléctrico, voz); Aynsley Dunbar (bateria)