Christoph Irniger Trio: “Open City” (Intakt)

Gonçalo Falcão

A vantagem de estar próximo de uma editora de jazz com prestígio internacional é a capacidade de colocar no mapa os músicos locais. Foi e é assim com os músicos nórdicos e alemães com a ECM, os portugueses com a Clean Feed e os suíços e alemães com a Intakt. O saxofonista Christoph Irniger tem o passaporte da confederação e talvez não se fizesse notado se não fosse ter por detrás o prestígio da editora do seu país. O seu “Open City” vem anunciado como sendo de um “trio”, mas na verdade a maioria dos temas é aditivada com um segundo saxofone (Loren Stillman) e um trombone. E ainda bem, porque o cruzamento dos dois saxofones (tenor e alto) é o que tira este disco da normalidade. O som redondo e quente de Nils Wogram no trombone é também uma peça importante para criar a sensação de continuidade e de coerência.

O disco funciona vagamente como uma banda-sonora imaginária para o romance homónimo de Teju Cole, editado em 2011, sobre um jovem psiquiatra nova-iorquino que tenta manter a sua cabeça sã depois de uma separação amorosa, não parando de andar pela cidade. Ao longo de quase 50 minutos, a música de Irniger parece também divagar por variadíssimas referências, dezenas de ideias musicais unidas num percurso irregular. A tensão entre forma e desconhecido, entre ordem e imprevisto é extremamente bem gerida, mantendo o registo livre e a ideia de que estamos a ouvir um álbum de duas horas. O disco tem um sentido de viagem sugestionado pela ligação ao romance, cheio de irregularidades e variações, com diversos ambientes a serem propostos, um luminoso sentido melódico e muita qualidade musical. Bom som, bem tocado e com um grupo com qualquer coisa de novo a dizer.