Marcos Cavaleiro: “Sete” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

A história do jazz está cheia de bateristas que foram líderes dos seus grupos e também os autores da música que tocavam. Em Portugal assim não tem acontecido (com as excepções de João Lencastre e Pedro Melo Alves), mas eis que Marcos Cavaleiro, membro cativo da Orquestra Jazz de Matosinhos e figura de um sem-número de projectos ligados à Porta-Jazz, acaba de lançar o seu primeiro álbum em nome próprio à frente de um quinteto de ilustres (a que, no último tema, se associa um sexto elemento, João Grilo, em electrónica): nele encontramos os saxofonistas João Guimarães e José Pedro Coelho, o guitarrista André Fernandes e o contrabaixista Thomas Morgan.

O título “Sete” advém, simplesmente, de serem sete as peças reunidas, na maior parte dos casos formalmente identificáveis como “mainstream” (registo em que Coelho brilha muito particularmente) e todas elas também de uma elegância composicional que é de registar. É essa a praia de Guimarães, que com o seu saxofone alto subscreve algumas das melhores intervenções que já lhe ouvimos. Com um som de veludo ligado à tradição cool e uma complexidade argumentativa que nos lembra que é aí também que um Braxton vai beber, o seu trabalho neste disco é notável. Mas não é o único. Em “4” (imaginem Lee Konitz com um “drone” sintetizado por baixo) e em “5” (com o pedal de distorção ligado) é Fernandes quem ganha destaque, Morgan faz-se notar no acompanhamento e quando sola (oiça-se “3”) e em toda a duração do CD ficamos com a certeza que um dos melhores usos dos címbalos que por cá temos traz consigo o nome de Cavaleiro. Se parece nada ter que ver com as anteriores com o seu paisagismo, a faixa “7” leva os ambientes criados para mais longe, num curioso orquestralismo “ambient”.