Duarte Fonseca / João Clemente: “Honor no Masters, Serve no Kings” (Profound Whatever)

Rui Eduardo Paes

Este já é um álbum de depois do apocalipse. Foi gravado no início do passado mês de Julho em Portugal (João Clemente, o guitarrista, vive em Berlim e aí passou o confinamento, mas na primeira oportunidade apanhou o avião para ver os seus) e já se encontra nas plataformas digitais. Os dois músicos que assinam “Honor no Masters, Serve no Kings” integram duas bandas que têm dado que falar nos últimos anos, cá e lá fora: Slow is Possible e Cat in a Bag. Nenhuma delas indicia o que aqui vem dentro. É música de depois do apocalipse, mesmo, com uma bateria estruturante e uma guitarra (barítono, é de assinalar) que dispara em todas as direcções. Literalmente, pois mesclam-se e confundem-se referências na música livremente improvisada, no jazz criativo, no punk, no metal, no industrialismo e no rock progressivo, com alguns dedilhares pelo meio que nos remetem para uma certa folk. As peles e os pratos ora são métricos, ora texturais, e a “solid body” ora surge em plano de unhas e dedos, ora é abusada por magnetos e por dispositivos electrónicos, umas vezes seguindo pelos caminhos em que encontramos, por exemplo, um Loren Mazzacane Connors e outras entrando pelo ruidismo transfigurador de Keiji Haino.

O “riffing” tem sempre a contramedida do abstraccionismo exploratório, combinando-se um e outro de modo muito natural, como se fossem as duas faces da mesma moeda. O que se molda depressa é desfeito, mas do caos controlado surgem sempre novas figurações, retirando-se de um “feedback” o feto de uma melodia ou de uma batida. Nunca se fica muito tempo numa situação. O “toca-e-foge” é uma estratégia composicional das próprias improvisações, sem que se entre em esquemas derivativos. As lógicas gerais são implacáveis, de acordo até com a dureza de títulos como “Write ‘Fuck’ on Your Calendar” ou “Primordial Age of Expression”, entre um “estou-me nas tintas” tornado conceito estético e o propósito de encontrar um modo de expressão que regresse à crueza fundadora da organização / criação sonora, ao momento em que a música ainda não é propriamente música. O que significa que estamos diante de uma obra que tem tanto de brutalista no seu desenho como de meticulosa, subtil e nuançada nas suas entranhas de relojoaria. Se cada uma destas vertentes parece excluir a outra por diferenciação das respectivas naturezas, nestes 10 temas alimentam-se uma da outra, e isso é tão subversivo quanto delicioso. Sim, este é um dos discos do ano…