Paulo Chagas / Pedro Chagas: “Histórias nas Nuvens” (Zpoluras)

Rui Eduardo Paes

De um álbum gravado em pleno confinamento pandémico espera-se tudo menos que soe a um disco de Verão, mas foi isso que conseguiu o multi-instrumentista Paulo Chagas (flauta, oboé, clarinetes, saxofones, piano, melódica, baixo eléctrico, percussão) neste trabalho a meias com o seu próprio filho, também ele a tocar vários instrumentos (guitarra, bandolim, viola braguesa, ukulele, piano, baixo eléctrico, caixinha de música). Face a tal panóplia de timbres e recursos natural seria que se recorresse à multigravação, sendo isso precisamente o que acontece neste “Histórias nas Nuvens”: é como se estivéssemos diante de todo um grupo. Aqui e ali, os dois Chagas contam com colaborações episódicas, como o contrabaixista João Madeira, o guitarrista Thierry Cardoso, a violinista Maria do Mar, o violoncelista Uygur Vural, o baterista Rui Santos e um tocador de erhu, Chiao-Hua Chang.

Para além do jazz reflectindo também a actividade de Paulo Chagas no folk-rock progressivo (é membro da banda Miosótis), o que aqui vem sabe a esperança, e consegue-o com uma simplicidade e uma candura que nos desarmam logo nos primeiros minutos. São canções o que ouvimos ao longo das 10 faixas, despretensiosas e elementares no seu esqueleto (a ausência de “produção” surge não como uma inconveniência, mas como uma opção positiva), mas sempre transmitindo uma impressão de estranheza – a mesma que nos deram, por exemplo, Penguin Café Orchestra e Clogs. Chagas celebra aqui a sua família e momentos há em que esse propósito chega a ser comovente, como em “Meu Álvaro Pequenino”, cantado por uma criança, Emília Gabriel. Leve, bela e serena é esta obra saída do pesadelo, e isso bastaria para que estivéssemos diante de algo bem especial.