Desidério Lázaro / Luís Candeias: “Unknown Road” (Robalo Music)

Rui Eduardo Paes

Dado o que conhecemos do gosto de Desidério Lázaro pela composição e pelos arranjos de grupo, o formato de duo saxofone-bateria parecia estar fora dos seus horizontes. Erro nosso, pois aqui está a sua estreia no dito, a meias com Luís Candeias. Não que criar música apenas com dois instrumentos diminua necessariamente a importância que a escrita e a aplicação prática de um conceito gobal possa implicar – o que acontece, com este “Unknown Road” (título premonitório, convenhamos), é que Lázaro (e Candeias com ele) se entrega mais desenvoltamente à improvisação, nunca antes tão solta como agora ouvimos. E com isso coloca em primeiro plano a sua relação directa, não intermediada, com os saxofones tenor e soprano, assim desvelando sem enfeites o ímpar executante em que se tornou. Um dos mais entusiasmantes da cena nacional, acrescente-se com toda a justiça.

Como não podia deixar de ser, o que ouvimos nestas faixas transporta-nos para essa incontornável referência que é “Interstellar Space”, de John Coltrane com Rashied Ali, ainda que as diferenças sejam muitas: Desidério Lázaro e Luís Candeias são mais parcos nas notas e mais pausados na narrativa, mantendo uma relação bem distinta com as respirações, as transparências e os silêncios da daqueles gigantes da história do jazz. Esses silêncios são geridos com sensibilidade e inteligência, de modo a valorizarem cada som ou sequência de sons no decorrer das intrigas e a ganharem uma relevância maior como elemento imprescindível do fazer musical. Para além destes factores há que notar que, com este álbum, Lázaro leva a sua matriz pós-bop (frequentemente tintada de funk e rock) até aos parâmetros consequentes do free, o que, se no seu percurso é novo, surge como algo que teria algum dia, inevitavelmente, de acontecer. Um grande disco que teremos doravante de tomar, até, como um marco.