David Binney: “Aerial” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Com as suas agendas de concertos canceladas e a continuação dos projectos que tinham em curso suspensa, alguns músicos aproveitaram o período de confinamento obrigado pela pandemia do Covid-19 para, em casa, criarem objectos sonoros que há muito desejavam realizar, mas iam adiando porque pouco ou nada se relacionavam com o que deles conhecemos e esperamos. Um desses casos foi o do saxofonista e compositor David Binney, que com este “Aerial” (encontrável no Bandcamp) entrou em pleno nos territórios da música electroacústica. Só uma vez ou outra o ouvimos a tocar saxofone – os seus instrumentos principais, aqui, são os electrónicos, entre computador e sintetizadores.

O propósito de criar música para uma exposição de artes plásticas da sua mulher (que nunca chegou a acontecer devido ao encerramento dos espaços públicos considerados não essenciais) levou-o a gravar estas peças que ora têm contornos pop oram ganham características experimentais no tratamento da microtonalidade, e ora têm um cunho paisagístico ora entram pelo mais saltitante “groove”. Em três dos temas adicionou as contribuições de outras pessoas, como Pera Krstajic no baixo eléctrico em “Dolphins” e James Nolan na guitarra e Zev Shearn Nance em bateria em “We Will See That Day”, enviadas em ficheiro. Leve, muito acessível e melodicamente atraente, esta faixa é uma das mais cativantes do álbum, cumprindo o propósito a que Binney se propôs: que todas estas peças, incluindo as mais exploratórias, como “Two Wave Hold Down”, funcionassem como um «antídoto dos sentimentos que todos estamos a ter nesta conjuntura». Não sendo, de todo, um título fundamental de David Binney, este tem a mais-valia de ser uma lufada de ar fresco na sua discografia e de frequentemente nos surpreender. Quando chegamos a “Late Day Swell”, a derradeira composição, apetece-nos voltar ao início…