Reckon

Jim Black Trio: “Reckon” (Intakt)

Intakt

António Branco

Jim Black é um baterista que os melómanos portugueses conhecem particularmente bem, não apenas por integrar essa relevantíssima instituição que é o Trio Azul de Carlos Bica, como também pelas inúmeras visitas ao nosso país, em distintos grupos e contextos instrumentais. O estilo de Black, identificável a léguas, remete de imediato para o fulgor e a energia do rock, a que acrescem significativas doses de imprevisibilidade e de disrupção, que o guindam a outros patamares de relevância musical.

“Reckon” é o quarto disco do trio de piano-contrabaixo-bateria liderado por Black – configuração que desde sempre de alguma forma desdenhou –, o segundo para a Intakt (a estreia no selo aconteceu com “The Constant”, editado em 2016). A formação completa-se com o pianista austríaco Elias Stemeseder (o principal responsável, no fundo, pela constituição deste trio, assim que Black o escutou pela primeira vez, em 2008) e por esse superlativo contrabaixista que é Thomas Morgan.

Pianista versátil, Stemeseder move-se com igual à-vontade em diferentes registos, voltando aqui a revelar qualidades enquanto hábil gestor de tempos e espaços, sempre disposto a questionar-se e a questionar-nos. Já Morgan é um colosso de segurança e de robustez, indo muito além da função classicamente atribuída ao instrumento, com o seu ataque assertivo e as linhas claras. É tão relevante pelo que faz como pelo que não faz.

Gravado na Suíça em apenas dois dias, “Reckon” mostra o caráter especial desta formação, na qual o líder ganha natural protagonismo durante a maior parte do tempo, embora conceda aos outros dois amplo espaço de manobra, no antes e no durante a execução. A propósito do segundo dia de gravação, Black, em notas de apresentação, disse que levaria a carne e os outros dois os acompanhamentos ou a sobremesa. Aliás, os três músicos assumem esse lado democrático da criação, agindo e reagindo, estimulando as intervenções dos demais.

“Astrono Said So” enceta o disco em alta rotação, com um intenso substrato polirrítmico engendrado por Black e Morgan. Segue-se “Tripping Overhue”, tema em que a fervura baixa um pouco, pelo menos inicialmente, com Stemeseder a explorar mais a componente melódica para logo depois tudo se complexificar novamente.

“Tighter Whined” é uma vinheta nervosa e plena de urgência, com o pianista a desenhar linhas que ora convergem ora se afastam do baterista. De pendor mais relaxado, “Spooty and Snofer” exibe, uma vez mais, a inventividade melódica do pianista, que se revela astuto a escapar a lugares-comuns. Superiormente introduzido pela elegância do contrabaixo de Morgan, “Very Query” mostra-nos de novo o pianista nas suas ruminações consequentes e “Focus on Tomorrow” expõe o seu lado mais lírico, embora jamais previsível.

“Next Razor World” é um turbilhão de sons, com o pianista a utilizar na plenitude os recursos do instrumento, fazendo dele emergir, quando menos se esperaria, uma bela linha melódica. “Neural Holiday” é a maior aproximação a uma balada nos termos convencionais – ainda que mantendo uma saudável distância.

“Dancy Clear Ends” é introduzido de forma detalhada, embora com o passar dos segundos adquira outra densidade rítmica, destacando-se a bateria irrequieta de Black, um Morgan sempre essencial e o piano a parecer tomar um novo rumo a cada instante. “What You Are Made From” é esparso e contemplativo, com Stemeseder de novo a explorar o seu melodismo esdrúxulo. A jornada encerra com o seu píncaro, a notável “This One and This Too”, verdadeira “tour-de-force” do pianista, onde parece estarmos na presença de dois pianos distintos (o título da peça parece, de certa forma, aludir a essa dualidade).

Esquivando-se habilmente às convenções mais poeirentas do formato, este é um disco multicamada que espoleta diferentes sensações a cada nova audição, o que diz muito da riqueza do que nele se escuta.

  • Reckon

    Reckon (Intakt)

    Jim Black Trio

    Elias Stemeseder (piano); Thomas Morgan (contrabaixo); Jim Black (bateria)