Luís Vicente: “Maré” (Cipsela Records)

Rui Eduardo Paes

Susana Santos Silva gravou em 2016 o seu “All the Rivers” no lisboeta Panteão Nacional, com o mesmo formato que aqui encontramos. Em 2017 foi a vez de Luís Vicente escolher outro espaço de grande reverberação para mais um solo de trompete, este agora editado: o Convento de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra. O mote de “Maré” é dado pelas cogitações de Fernando Pessoa sobre símbolo e analogia e percebe-se porquê quando lemos o verso «Tudo o que vemos é outra coisa». Terá Vicente querido com este disco explorar situações em que «tudo o que ouvimos é outra coisa». Se um solo de música improvisada (música por natureza colectiva e partilhada) é, na verdade, um duo entre quem toca e a música que se cria, em ambos estes casos, e neste de forma muito objectiva e procurada, surge como um trio entre o improvisador, a matéria da improvisação e o eco ou o “delay” provocado pelas paredes de pedra.

Em cada momento pressentimos a interacção entre essas três forças, com Luís Vicente a seguir tanto o que lhe vem de dentro como aquilo que vai descobrindo nos retornos moldados pela arquitectura secular do velho convento. Essa interacção é feita de acção e reacção, de movimentos que vêm de dentro e de fora e vão sendo entrelaçados, ora mais pausadamente, como que meditando sobre o que acontece, ora com direcção estabelecida. Mas se encontramos neste álbum a musicalidade mais essencial de Vicente (todo um mundo emoldurado por longínquas referências a Don Cherry e Kenny Wheeler), os equilíbrios em construção parecem ser vencidos pelo espaço – tanto assim que muitas vezes parece estarmos a ouvir música barroca. É como se o convento do século XVII impusesse a sua idade ao que o trompete faz, assim criando um vórtice em que passado e presente – um presente representado pelas técnicas inovadoras e os léxicos experimentais utilizados pelo trompetista – se confundem. Daí resulta algo que é novo e antigo em simultâneo, «(…) sombras de mãos cujos gestos são / A ilusão mãe desta ilusão».