Patrick Brennan / Maria do Mar / Ernesto Rodrigues / Miguel Mira / Hernâni Faustino / Abdul Moimême: “The Sudden Bird of Waiting” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

O saxofonista alto norte-americano Patrick Brennan já viveu uns anos em Portugal – hoje instalado na cidade de Nova Iorque (é originário de Detroit), volta e meia vem ao nosso país para tocar com os amigos que por cá deixou (muito especialmente Abdul Moimême, com quem estabeleceu fortes ligações musicais, e que também participa neste “The Sudden Bird of Waiting”) e outros que a ele se juntem. Foi o que aconteceu em 2018 e agora tem a forma de CD. Brennan também toca violino (e corneta, como aqui ouvimos), pelo que a sua combinação com cordas de arco surgiu muito naturalmente. Maria do Mar em violino – já numa altura em que estava a destacar-se na cena portuguesa –, Ernesto Rodrigues na viola, Miguel Mira no violoncelo e Hernâni Faustino no contrabaixo são os seus interlocutores, com Moimême a acrescentar uma dimensão electroacústica com as suas duas guitarras eléctricas preparadas e utilizadas em simultâneo – discreta na maior parte dos casos, só ganhando maiores contornos nas duas últimas faixas, “A que Distância?” e “O Pássaro Repentino da Espera”.

A instrumentação, os nomes em presença e o facto de esta ser uma edição da Creative Sources faziam prever que este seria um álbum de música livremente improvisada, mas se a improvisação é integral de facto, este é um dos poucos títulos conotados com o free jazz no catálogo da editora dirigida por Rodrigues. Nada tem da fórmula “Charlie Parker with Strings”, como seria de esperar, mas também poucos vínculos mantém com “Skies of America” de Ornette Coleman. Imaginem as units de Cecil Taylor com Michel Samson ou Ramsey Ameen com mais adições cordofónicas e tirem o piano da equação: mais próximos estarão do tipo de situação que neste registo é explorado. Patrick Brennan não é um Jimmy Lyons, mas as referências auditivas vão inevitavelmente para esse lado. Os equilíbrios e (intencionais) desequilíbrios musicais estão entre o sax alto de um lado e o naipe violino-viola-violoncelo-contrabaixo do outro, com a nossa atenção em permanente pingue-pongue de um lado para o outro. E se ouvir o alto de Brennan (e o seu “spoken word” em “Nextness”) é um prazer, o extraordinário mesmo é o entrosamento que do Mar, Rodrigues, Mira e Faustino conseguem estabelecer entre si. Uma delícia de disco.