Ernesto Rodrigues / Carlos Santos: “Metamorfose” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

O título diz tudo: parceiros em numerosas situações com o envolvimento de outros músicos, neste disco Ernesto Rodrigues e Carlos Santos centram-se na ideia de tornar o violino e a viola do primeiro em instrumentos expansivos, ou seja, com qualidades metamórficas que vão muito para além das suas capacidades acústicas naturais, mas que nunca iludem essa origem. Como? Com o seu computador, Santos processa em tempo real o que o companheiro faz, numa exploração que é predominantemente tímbrica, mas, regra geral, tão discreta e tão determinada em deixar incólume a sonoridade do violino ou da viola, que é como se este duo fosse, na verdade, um solo assistido de Rodrigues. Se a anterior combinação destes dois improvisadores, “Piano”, optou por prescindir dos instrumentos com que habitualmente os ouvimos a tocar, ocupando-se o violetista das cordas interiores de um piano e utilizando o manipulador electrónico, em simultâneo, o teclado desse mesmo piano, neste “Metamorfose” a motivação é tornar em ferramentas cibernéticas os cordofones em causa sem lhes retirar humanidade.

Carlos Santos é exímio neste tipo de procedimentos, como de resto sabíamos pelo trabalho que desenvolvia num grupo que tarda em repetir apresentações de palco, o ZNGR Electro-Acoustic Ensemble, com Carlos “Zíngaro” e Emídio Buchinho, mas tendo em conta o muito que já fez com Ernesto Rodrigues e encontramos no catálogo da Creative Sources faltava saber como resultaria uma abordagem deste género num contexto que substitui totalmente a frase pela textura, o discurso ainda melódico e narrativo da música improvisada herdeira do free jazz pelo uso plástico e abstracionista dos materiais sonoros segundo as premissas deixadas pela música erudita contemporânea (estou a falar em predominâncias de linguagem, pois “Zíngaro” também toca texturalmente e Rodrigues pode ser, por vezes, frásico). Agora sabemos, numa música que ora recorre ao “drone”, ora se torna acentuadamente percussiva, e que nos vai gradualmente fascinando ao longo de 36 minutos. Sim, este é, sem dúvida, um dos álbuns do ano…