Hugo Raro: “Connecting the Dots” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Entra a primeira faixa com título de filme spaghetti de cowboys, “O Bom, o Mau e os Vilões”, com o seu ritmo desconjuntado e persistente, todo ele em contratempos, e ficamos desde logo com a impressão de que esta viagem (essa é a ideia a que o pianista e compositor Hugo Raro se propõe nas notas de capa, proporcionar-nos «uma viagem de repouso, de contemplação, de descoberta, chegando a diferentes destinos e encontrando infinitas sensações») vai ser especial. Até pelo facto de os caminhos tomados não serem os mais óbvios e trilhados no planeta jazz. E assim é: depois de um tema jingão e bem-humorado vem “Terra Molhada”, muito mais pausado e particularista, cheio de espaços e respirações, com ênfase nos esvaziamentos de conteúdo, e sentimos mesmo o cheiro a terra depois de chover. Soa como uma valsa escangalhada, com métricas diferentes em combinação, e é uma delícia.

Com Raro estão João Mortágua no saxofone alto, José Carlos Barbosa no contrabaixo e Marcos Cavaleiro na bateria, uma associação de nomes que de imediato nos aguça o dente – ou melhor, o ouvido. E reparem no que eles fazem em “Temporalidade”, peça que é como Bach jazzístico para o século XXI, tão reverente como humorística. Queriam swing? Também há, em “In Between”: começa por lembrar vagamente um Oscar Peterson, mas as linhas melódicas não podiam ser mais europeias, ou até portuguesas, com o agridoce típico do saxofonismo de Mortágua. E se o solo de Barbosa é feito de pinceladas de pretos e cinzentos, os pratos de Cavaleiro surgem como pequenas faíscas alaranjadas. “Catrapum” sobe e desce como uma roda de feira, em constante soma e diminuição de notas, em volta de um piano todo ele gesto e movimento. “Old House” vira o foco para dentro: a casa velha de que trata são os nossos pensamentos e emoções, deixando-se ir pelas interrogações que transportam e beneficiando dos ensinamentos que Paul Desmond deixou quando tocava baladas. Para o fim fica o começo de uma fábula, “Era Uma Vez”: imaginamos um animal saltitão e rodopiante numa paisagem distante, com João Mortágua a assinar uma das melhores improvisações cifradas da sua vida e Hugo Raro a partir a loiça. Temos aqui pepita.