Time Elleipsis

Frederick Galiay Chamæleo Vulgaris: “Time Elleipsis” (Ayler Records)

Ayler Records

António Branco

Os melómanos portugueses mais atentos associarão o nome do baixista francês Frederick Galiay (n. 1971) sobretudo ao sexteto Supersonic, que o saxofonista Thomas de Pourquery operacionalizou em 2012 para revisitar a música de Sun Ra (a formação visitou-nos aquando da edição de 2016 do festival Jazz em Agosto, na Fundação Calouste Gulbenkian). Mas o músico tem desenvolvido atividade bem mais ampla, sendo de destacar a parceria com o baterista Edward Perraud – no duo Big, criador de um drum´n´bass de contornos dificilmente catalogáveis – e no projeto Pearls of Swines, no qual trabalhou sobre “O Corvo” de Edgar Allan Poe.

Músico de horizontes largos, Galiay ganhou em 2016 uma bolsa ao abrigo do programa “Hors les Murs”, promovido pelo Instituto Francês, no âmbito da qual realizou uma residência na Tailândia, no Laos, no Camboja e em Myanmar (antiga Birmânia), países que já visitara regularmente no passado. Durante esse período, imergiu no universo das cerimónias milenares do budismo teravada – expressão que significa “ensino dos sábios” –, mas também nos rituais animistas das várias etnias presentes. Fundada na Índia, a teravada é a mais antiga escola budista. A sua doutrina promove a análise crítica e o raciocínio, em vez da fé cega, apesar de os textos sagrados teravada enfatizarem a importância dos conselhos dos anciãos. O fascínio de Galiay por estas músicas não é novo. A sua primeira obra, “Missing Time”, para baixo elétrico solo, foi composta sob forte influência da música produzida pelos monges Bonpo, do Tibete.

Os resultados do cruzamento entre a música e a poética das cerimónias budistas e pré-budistas daquela região do planeta e linguagens musicais contemporâneas deram origem à obra “Time Elleipsis”, inicialmente pensada para o sexteto Chamæleo Vulgaris, mas arquitetada de modo a permitir diferentes tipos de extrapolações para outros contextos sónicos. Uma versão para duas orquestras de improvisadores (a ONCEIM - Orchestre de Nouvelles Créations, Expérimentations et Improvisations Musicales, de Paris, e o Ensemble Un, baseado em Bordéus) e guitarra elétrica concertante foi levada a palco em setembro de 2018 no âmbito do festival Crak. No verão do ano seguinte, a obra foi registada após um conjunto de apresentações do Chamæleo Vulgaris, que a burilou antes de seguir para estúdio. A formação completa-se com Antoine Viard no saxofone barítono eletrificado, Jean-Sébastien Mariage na guitarra elétrica, Julien Boudart no sintetizador analógico, Sébastien Brun e Franck Vaillant nas baterias, percussões acústicas e eletrónicas.

O que se escuta é uma espécie de ópera sem vozes nem texto. Em entrevista, Galiay explicou o propósito do trabalho: «Nós não compomos qualquer coisa, mas com qualquer coisa.» «Este trabalho não é de forma alguma o de um musicólogo ou etnomusicólogo, que eu não sou, mas um olhar sensível às diferentes formas através das quais os seres humanos expressam sentimentos semelhantes nos quatro cantos do mundo», precisou.

Assim que se descortinam os primeiros sons profundos de “Naga Convulsions” (divindades budistas que geralmente assumem a forma de uma cobra gigante, com uma ou várias cabeças), os sentidos são tomados de assalto pela profusão de sons, elétricos e orgânicos, num caleidoscópio de génese incerta, que cria uma atmosfera que tem tanto de perturbante como de desafiadora. Na peça seguinte, “Sentence/Samsara” retornam os espasmos elétricos, até que brotam notas límpidas de guitarra. Tudo acalma e a massa sonora, agora mais rarefeita, é conduzida pelo saxofone eletrificado de Viard e pontuada pela riqueza das percussões.

“Luasamla/Points Cardinaux” é ritmicamente vibrante. A dado momento, um ténue fio de som transporta-nos para um novo mundo, mais onírico e detalhado. Já “Saneu Kham Samout” começa por tomar a forma de um festim rítmico que se metamorfoseia, progressivamente mais complexo, até desencadear uma tempestade elétrica. Depois desta, a bonança. “Nirmanakâyâ/Dhyâna” é longamente introduzida pela guitarra de Mariage, alternando passagens diáfanas com outras mais intensas, até que se junta o saxofone para um diálogo sussurrado. “Dharmakâya/Oiseaux Terrifiants” é marcada pela interação entre a eletricidade das cordas e efeitos e o caráter orgânico das múltiplas percussões. “Sukha”, epílogo de forte carga espiritual, encerra o disco em tons serenos. Permitamos que os nossos conceitos de espaço, tempo e cultura sejam baralhados.

  • Time Elleipsis

    Time Elleipsis (Ayler Records)

    Frederick Galiay Chamæleo Vulgaris

    Frederick Galiay (composição, direção, baixo elétrico); Antoine Viard (saxofone barítono eletrificado); Jean-Sébastien Mariage (guitarra elétrica); Julien Boudart (sintetizador analógico); Sébastien Brun, Franck Vaillant (bateria, percussão, percussão eletrónica)