Blood Moon

Ingrid Laubrock / Kris Davis: “Blood Moon” (Intakt)

Intakt

Gonçalo Falcão

“Blood Moon” é o segundo volume de duos de Ingrid Laubrock na editora suíça. Até agora, duos no feminino. O primeiro disco desta série, saído o ano passado, relatava o encontro com o piano de Aki Takase (“Kasumi”). Este ano, mantém-se o número e mantém-se a instrumentação, mas muda a pianista. O disco dá conta da improvisação de Ingrid Laubrock com a pianista americana Kris Davis. Davis, como Laubrock e Takase, é compositora, improvisadora e líder de grupos.

O primeiro contacto com a música impressiona por dois motivos. O primeiro por serem iniciadas por frases pequenas, curtas, quase pueris e que parecem não ter saída. O segundo porque em cada peça as duas instrumentistas conseguem estar sempre a construir uma música complementar. O modelo varia, mas a ideia que perpassa toda a audição de “Blood Moon” é o mesmo: a composição apresenta pequenos fragmentos escritos e a improvisação desenvolve-se a partir dali, com um enorme sentido de complementaridade e a capacidade de foco de um microscópio electrónico.

O tema inicial parte de um pequeno motivo escrito, quase infantil. Há um uníssono ao começo que avisa que as duas vão manter-se sempre juntas, mesmo quando improvisam. Há um verdadeiro sentido de partilha e de procura, nunca se sentindo que uma das intervenientes avança e a outra vai atrás dela. Avançam sempre em conjunto e a criação vai acontecendo, livre, mas a partir de propostas que são laboriosamente desenvolvidas. Parece haver uma vontade conjunta de nunca abandonar a forma, mas apenas de a modelar, como numa peça de barro que vai sendo desenvolvida a quatro mãos, sem uma ideia sobre a sua função e sem nunca perder o sentido da matéria-prima.

«Musically we are kindred spirits», diz Ingrid Laubrock sobre Kris Davis. As duas parecem gémeas, daquelas em que uma sofre uma dor e a outra também sente. Muito interessante ainda a experiência de reouvir o duo com Takase (elegido por alguns aqui na jazz.pt como um dos melhores discos do ano passado: https://jazz.pt/artigos/2019/12/27/melhores-de-2019/ ) depois de ouvir este e perceber a generosidade de um músico de jazz e o modo como está disponível a entregar-se ao outro, aceitando as suas particularidades e tocando com elas.

  • Blood Moon

    Blood Moon (Intakt)

    Ingrid Laubrock / Kris Davis

    Ingrid Laubrock (saxofones tenor e soprano); Kris Davis (piano)