Rafael Toral: “Open Space” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Já com um distanciamento que lhe permite olhar para o passado numa perspectiva de futuro, Rafael Toral acaba de lançar “Open Space”, álbum de retrospectiva dos vários anos de Space Program. Os temas foram seleccionados dos discos desta série que foram saindo entre 2004 e 2017, tendo como critério de escolha aqueles que revelavam, no seu dizer, «uma noção de espaço mais apurada». Os músicos que o acompanham (nas peças em que não toca a solo) são os que reuniu para tais ocasiões, com destaque para Sei Miguel e Tatsuya Nakatani. Ouvimos ainda João Paulo Feliciano, Riccardo Dillon Wanke, Fala Mariam, César Burago, Rute Praça e Ruben Costa. A síntese a que procedeu funciona, curiosamente, como uma obra totalmente distinta e que pode ser ouvida, neste alinhamento, como algo de novo – o “feeling” auditivo que se vai construindo minuto a minuto e faixa a faixa é diferente daqueles que foram antes proporcionados.

A beleza que desta colecção emana é simultaneamente geométrica, abstracta, e humana, muito devido à forma orgânica como Toral vinha utilizando os seus dispositivos electrónicos experimentais (porque, em muitos casos, transformados por si), num tipo de fraseio que mimetizava os instrumentos de sopro do jazz, em termos de lógicas expositivas e de respirações. Agora que o músico de Lisboa contempla o seu regresso à guitarra – o que acontecerá em CD no próximo Outono, por meio de uma parceria com o percussionista João Pais Filipe que terá como título “Jupiter and Beyond” -, os «avanços herdados» do período aqui compilado surgirão apenas com um novo tomo do Space Quartet. Será outra coisa, necessariamente, mas alimentando-se de alguns aspectos que agora encontramos reunidos neste título. Ficaremos atentos a esse provir.