Take Root Among the Stars

Roots Magic: “Take Root Among the Stars” (Clean Feed)

Clean Feed

Rui Eduardo Paes

Italianos de origem, mas muito negros na música, os Roots Magic sabem tudo sobre blues. Sabem com um saber enciclopédico que supera o dos académicos, porque os ouvem - e tocam - com uma perspectiva apaixonada, única, de arqueólogo e antropólogo sem distância. Os blues, para este grupo, não são só a música de Charley Patton (apesar de este estar sempre presente; neste novo disco, a foto do interior é a do quarteto na sua campa). Para este quarteto de Roma, os blues são toda a herança da música negra que viajou para os Estados Unidos e que se desenvolveu a partir das canções das plantações e do repertório dos “deep blues” (final dos anos 20 do século passado, início dos 30) e dos “jazzmen” que orgulhosamente incorporaram as músicas africanas na luta contra a discriminação dos anos 1960. É a grande música negra americana lida a partir da cidade europeia mais bonita do mundo.

Para se poder ter uma noção da música creio que ajudará ver os autores que tocam: os “bluesmen” (e “blueswomen”) Charley Patton, Geeshie Wiley, Blind Willie Johnson e Skip James. Entre os “jazzmen” temos Roscoe Mitchell, Marion Brown, Julius Hemphill, Hamiet Bluiett, Pee Wee Russell, Henry Threadgill, Phil Cohran, John Carter, Sun Ra, Olu Dara, Kalaparusha Maurice McIntyre, CharlesTyler e Ornette Coleman. A ideia de libertação, de luta pela causa negra, de políticas igualitárias e de superação pela música sobressai ao vermos listados os compositores que o grupo escolheu interpretar nos seus três discos. Compreendemos por que é que o grupo italiano não deixa de ir à fonte em Holly Ridge, no Mississippi, antes de seguir o percurso da água.

A banda surgiu em Roma em 2013 e todos os seus três álbuns foram editados pela Clean Feed. É um trabalho que cresce e vai ficando mais consistente. Ouvi-los ao vivo (Seixal Jazz) impressionou, pois a sua qualidade técnica é gigantesca, bem como a capacidade que cada um tem de renovar numa música que parece sagrada (ou que, pelo menos, faz mais pela alma do que muito livro bento). Trata-se de um trabalho apaixonado de quem, como comecei por dizer, dá aulas sobre blues e conhece profundamente a música. Ao estudá-la e praticá-la descobre-lhe racional e emocionalmente as frinchas mais ocultas.

Em todas as interpretações contamos com as releituras dos italianos e estes, por vezes, introduzem composições suas dentro dos temas originais, numa forma de apropriação interessantíssima em que os temas são “infectados” e reaparecem diferentes e mais fortes. É o caso de “Frankiphone Blues”, que abre este terceiro volume, assinado por Phil Cohran (trompetista na Arkestra de Sun Ra de 1959 a 61 e fundador da AACM). Uma peça notável que foi desenterrada das profundezas de um baú de três singles editados pela Zulu Records da Philip Cohran & The Artistic Heritage Ensemble. A adição de vibrafone e flauta cria uma dimensão orquestral e a música tem uma forma e um sentido circulares que nos hipnotizam. Ficamos desde logo agarrados a este disco que já gira no meu leitor de CDs há um mês! Os blues e o jazz libertário magnificamente lidos e estudados, é o que aqui encontramos. Grande disco para confinamentos, desconfinamentos e mais além.

  • Take Root Among the Stars

    Take Root Among the Stars (Clean Feed)

    Roots Magic

    Alberto Popollla (clarinetes soprano e baixo, objectos); Errico De Fabritiis (saxofones alto e barítono, harmónica); Gianfranco Tedeschi (contrabaixo); Fabrizio Spera (bateria, percussão, cítara)