Both Are True

Webber / Morris Big Band: “Both Are True” (Greenleaf Music)

Greenleaf Music

António Branco

Com chancela da Greenleaf Music – de Dave Douglas –, “Both Are True” é a aguardada gravação de estreia da orquestra co-liderada, vai para meia década, pelas saxofonistas e compositoras Anna Webber e Angela Morris. À frente do seu septeto, Webber, que estudou composição com John Hollenbeck, ofereceu-nos recentemente o excelente “Clockwise”, um dos melhores discos do ano passado; Morris, discípula de Darcy James Argue, lançou no final de 2019, com o seu trio TMT, o disco / livro “Asleep in the Dust”, em colaboração com o artista visual Jerry Birchfield.

Webber e Morris, de origem canadiana, estiveram envolvidas no BMI Jazz Composers Workshop, fundado em 1988 por Bob Brookmeyer, iniciativa com foco na composição para grandes formações e cuja “big band” constitui uma espécie de tronco a partir do qual ramificam novos projetos e colaborações. Entre as principais referências de ambas estão compositores iconoclastas como Karlheinz Stockhausen e John Cage, bem como figuras maiores do jazz de vanguarda, como Cecil Taylor. Diz-me quem te influencia, dir-te-ei quem és...

A “big band” que operacionaliza a visão gizada por ambas é constituída por 19 instrumentistas – seis saxofonistas, que dobram na flauta ou no clarinete, quatro trompetistas / fliscornistas, quatro trombonistas, uma vibrafonista, um guitarrista, um pianista, um contrabaixista e um baterista – o que lhes permite disporem de uma vasta gama de recursos. As líderes optam quase sempre por furtar-se às contingências da utilização de uma “massa sonora” compacta, preferindo apostar na relojoaria sonora, através da utilização de técnicas estendidas e de uma atenção especial às subtilezas.

Sendo evidente a cultura jazzística, há também constantes aproximações a territórios próximos da música erudita contemporânea, articulando de forma estimulante o material escrito com improvisações. A música é complexa e rica em texturas, revelando uma noção clara de sentido “comunitário”, traduzida em arranjos esdrúxulos, equilibrando a gestão holística dos vários instrumentos (que raramente, diga-se, funcionam como naipes) com intervenções solísticas.

“Both Are True” inclui nove peças compostas por Webber ou por Morris (são três as assinadas conjuntamente), assinalando-se a particularidade de nas peças de uma, a outra desempenhar papel de solista. O dinamismo de “Climbing on Mirrors”, escrita por Webber, diz muito do que se vai ouvir, com o seu arranjo intrincado e multicamada. Um motivo melódico é apresentado por saxofone e flauta e depois transportado para outros caminhos. Nota para o solo expressivo da saxofonista alto Charlotte Greve (atenção a ela!), que dá lugar a uma bela melodia vocal (sem palavras) entoada por toda a formação.

“Duo 1” e, mais à frente, “Duo 2” são duas curtas, mas deliciosas, interações entre os saxofones tenor de Webber e Morris. De atmosfera mais luxuriante, a peça que dá título ao disco – escrita por Morris – regista a sucessão daquilo que parecem ser diferentes secções, com os sopros a fazerem uso de sons aparentemente desconexos e que criam um efeito de espiral. No plano individual, destacam-se as intervenções de Jay Rattman no saxofone soprano e da vibrafonista Patricia Brennan (outra figura emergente a ter em conta).

“Rebonds” é montra para a guitarra elétrica de Dustin Carlson (ecoando um certo Marc Ribot), num crescendo de intensidade. Já da serenidade etérea de “Coral”, contrastada por uma métrica instável, brota o trompete luminoso de Adam O’Farrill. Na sua atmosfera mais clássica – na aceção jazzística –, “And It Rolled Right Down” exibe uma sonoridade orquestral elegante, de traços “ellingtonianos”, sobressaindo a conversa a três entre o clarinete de Adam Schneit, o trombone baixo de Reginald Chapman e o trompete de Jake Henry. Mais abstrata, “Foggy Valley” (co-escrita pelas líderes com o saxofonista e amigo Nathaniel Morgan) é moldada pela rugosidade do saxofone de Angela Morris.

O disco encerra com a sua peça mais extensa, “Reverses”, o epílogo ideal em termos de sofisticação tímbrica, nela coabitando o piano esparso de Marc Hannaford (gostava de o ter escutado mais), uníssonos espessos e percussão delicada (para além do solo assertivo do trompetista Kenny Warren). No minuto final é repetida, em jeito de mantra, uma frase da poeta e ativista pelos direitos cívicos Maya Angelou. Um disco notável que certamente cairá no goto de quem busque um jazz desafiador e que interpela convenções.

  • Both Are True

    Both Are True (Greenleaf Music)

    Webber / Morris Big Band

    Angela Morris, Anna Webber (direção, saxofones tenor, flautas); Jay Rattman (saxofones alto e soprano, flauta); Charlotte Greve (saxofone alto, clarinete); Adam Schneit (saxofone tenor, clarinete); Lisa Parrott (saxofone barítono, clarinete baixo); John Lake, Jake Henry, Adam O’Farrill, Kenny Warren (trompetes, fliscórnios); Tim Vaughn, Nick Grinder, Jen Baker (trombones); Reginald Chapman (trombone baixo); Patricia Brennan (vibrafone); Dustin Carlson (guitarra); Marc Hannaford (piano); Adam Hopkins (contrabaixo); Jeff Davis (bateria)