Egil Kalman & Fredrik Rasten: “Weaving a Fabric of Winds” (Shhpuma)

Gonçalo Falcão

Há discos que têm dias e horas para serem ouvidos. Contêm música própria para um determinado horário ou circunstância. É o caso de “Weaving a Fabric of Winds”: é um disco de domingo de manhã. Aprendi a ideia de disco de domingo com Jorge Lima Barreto e Vítor Rua: para eles, na manhã do dia do Senhor, só se deveria ouvir órgão. Este álbum, do duo nórdico (Suécia / Noruega) de Egil Kalman e Fredrik Rasten, não serve para esse efeito matinal, mas é perfeito para o pós-almoço de domingo à tarde. Hora da sesta. O conceito deve ser estranho para os autores, pois os nórdicos não valorizam, como nós, os encontros ao almoço e em particular os de domingo, mas para as nossas coordenadas este horário, para este disco, é uma evidência. A fórmula musical é bem conhecida e fácil de aplicar – muito difícil é conseguir que ela resulte bem. E Kalman e Rasten conseguem-no. Entram pela porta aberta por Morton Feldman, Giacinto Scelsi e Brian Eno: notas muito espaçadas, sons que reverberam e respiram, só depois dando lugar aos seguintes. O tempo é o elemento determinante, não só para criar a ideia de um caminho, de alguma coisa em movimento, como também para conseguir que esse andamento não se sinta e que cada som seja uma unidade própria, apreciada em todas as suas dimensões. A dupla consegue-o numa música com o andamento de uma nuvem de Verão, que parece não se mover, mas desliza.

Egil Kalman toca sintetizador modular e Fredrik Rasten guitarras (acústica e eléctrica), tendo este trabalho sido editado em CD e em vinil. Foi a versão em rodela preta a apreciada por mim, apesar de o tema principal, “Weaving a Fabric of Winds”, ficar dividido entre o lado A e o lado B neste formato. A separação da música foi feita com sentido, com o disco a ter uma primeira parte de 20 minutos e uma segunda com dois temas, um de cinco e um de 16 (“Droplets in Air”) que funcionam perfeitamente como três peças diferentes. Tendo eu uma total desconsideração pelas discussões sobre o que é jazz, meio jazz ou um quarto de jazz, devo mesmo assim deixar o aviso de que esta música não cabe nas categorizações jazzísticas tradicionais, partindo, sim, de um processo de improvisação entre os dois músicos. O registo para o ouvinte é o de uma música eletroacústica experimental, nas fronteiras do ambiental (fase inicial de Brian Eno) em que o silêncio é grandemente valorizado.