Luís Vicente / Olie Brice / Mark Sanders: “Unnavigable Tributaries” (Multikulti Project)

Rui Eduardo Paes

Nestes tempos em que a edição de um novo disco é, por si mesma, um acto de resistência, qualquer música assim chegada ao público que não esteja conforme com a homogeneização do gosto a que vamos assistindo é uma manifestação de inconformismo. Com este envolvimento, chega-nos o presente testemunho da colaboração do trompetista português Luís Vicente com o contrabaixista Olie Brice e o baterista Mark Sanders, duas das mais importantes figuras da cena britânica do jazz e da improvisação. Em boa hora acontece: com a mesma carga que levou a revista Wire a definir uma “fire music” (expressão que foi o título de um álbum de Archie Shepp) com base no legado do free jazz, o que vem em “Unnavigable Tributaries” tem o mérito de continuar o caminho de uma tendência musical que se caracterizou, precisamente, pelos seus pressupostos interventivos e, ao mesmo tempo, de o levar a outros destinos, trazendo a dita prática para o plano actual.

E no entanto, nada neste disco há de épico. Nenhum hino se encontra no alinhamento dos temas. O que há é uma interacção a três que tem como coordenadas a reflexão – há mesmo algo de meditativo nesta música –, a partilha e a pesquisa. Desmontemos esses factores. A introspecção é, aqui, algo que não tem necessariamente de ter a forma de balada – surge, sim, como um mergulho nas próprias matérias sonoras conjuradas e conjugadas. A empatia consegue-se não pelo achamento de um mínimo denominador comum entre três mentes musicais, mas por uma cooperação de autonomias criativas que pode passar pela divergência. A descoberta faz-se pelos terrenos da linguagem (oiçam-se as ocasionais desconstruções lexicais e tímbricas de Vicente, mais condizentes com contextos experimentais do que propriamente jazzísticos), mas também ao nível, para alguns tão “démodé”, da expressão (o mesmo Vicente deleita-nos com simples fraseados melódicos), sem qualquer receio de estabelecer atmosferas “moody”. É isso que agrada particularmente neste trabalho: o facto de nada ser entendido como tabu, de se assumir plenamente a ideia de liberdade que gerou este tipo de abordagem. Isso e outras coisas que vamos ouvindo, a exemplos do modo desconcertante, mas tão oportuno, como Sanders trabalha com os pratos e da maneira como Brice prolonga esses efeitos sem a ele se colar. Chapa gasta, chapa ganha…