Recognition: Music for a Silent Film

Sara Serpa: “Recognition: Music for a Silent Film” (Biophilia)

Biophilia

António Branco

No seu magistral “Racismos: Das Cruzadas ao Século XX”, Francisco Bethencourt comprova, recorrendo a diferentes exemplos, a hipótese de que o racismo foi motivado historicamente por projetos políticos. A presença portuguesa em África conheceu uma particular efervescência ao longo da década de 1960, após iniciada a guerra colonial, com o recrudescimento das atrocidades cometidas pelo regime fascista de Salazar, particularmente em Angola. Seis décadas volvidas, ainda discutimos se deve existir um museu dedicado às “descobertas” e qual a abordagem que o mesmo deverá prosseguir. A matéria permanece, pois, atual e fraturante na sociedade portuguesa.

Ocupação, colonialismo, racismo, trabalhos forçados, violência, segregação, exploração, opressão. Palavras-chave do mais recente projeto multidisciplinar de Sara Serpa, “Recognition: Music for a Silent Film”, em que a vocalista, compositora e improvisadora mergulha a fundo no sombrio legado da presença portuguesa naquele país africano, explorando o silêncio da sua própria família em torno dele. «Poucas pessoas na minha família conversaram comigo abertamente sobre isso. Talvez este seja o trabalho das gerações seguintes, pesquisar, digerir e processar o passado», diz-nos Serpa.

O projeto, dedicado ao pai (que tendo contribuído na fase de investigação, não chegou a ver o resultado final), resultou assim de uma vontade pessoal, mas também da «necessidade de expor algo que não foi discutido e reconhecido o suficiente a nível nacional e social». Várias foram as preocupações que a nortearam neste notável empreendimento, entre as quais, revela-nos, os desejos de «destacar o poder da música como ferramenta de evolução social, reflexão e educação» e de «quebrar o silêncio sobre o colonialismo português e o racismo institucional».

Ao décimo álbum, Serpa – lisboeta a residir em Nova Iorque desde 2008 e envolvida em múltiplas causas, como é exemplo o coletivo We Have Voice, com o fito de promover a equidade de género nas artes performativas – dá um significativo passo em frente, consolidando e ampliando o seu estatuto não apenas como uma das mais inovadoras vocalistas do nosso tempo, mas também, e porventura sobretudo, enquanto compositora e arquiteta sonora de relevo. Documentando e refletindo artisticamente sobre esse período da nossa história coletiva recente, Serpa toca numa ferida ainda bem aberta na relação entre ambos os países e fá-lo de modo profundo e tocante.

O material registado em Super 8 pelo avô, Rui Oliveira Correia, e pertencente ao arquivo da família foi transformado, com o auxílio do realizador Bruno Soares, num documentário experimental no formato de filme mudo, com quase uma hora de duração. As imagens mostram aspetos da vida de colonizadores (momentos de lazer, paradas e treinos militares) e colonizados (trabalho árduo). A estas, Serpa adiciona as palavras de Amílcar Cabral – histórico líder da resistência anticolonial africana –, mas também do escritor Luandino Vieira e da professora de História e Estudos Afro-Americanos da Universidade de Boston, Linda M. Heywood.

A música por si composta é executada por uma formação de configuração instrumental pouco ouvida, na qual pontificam três músicos superlativos: a harpista Zeena Parkins, o saxofonista Mark Turner e o pianista David Virelles (que nunca antes tinham tocado juntos como grupo). O que mais impressiona é que as ideias se convertem numa música que é muito mais do que mera banda sonora de acompanhamento das imagens em movimento, constituindo ela própria uma poderosíssima experiência. Serpa utiliza a sua abordagem vocal muito característica – na generalidade sem recurso a palavras –, para criação de cativantes paisagens sonoras, quer quando trata a voz como instrumento adicional do “ensemble”, quer quando a utiliza como foco das narrativas em “spoken word”.

O mote é dado por “Lei do Indigenato, 1914” (referência ao regulamento do trabalho indígena), que exibe o modo consequente como harpa, piano e saxofone interagem, urdindo a base para a voz de Serpa pairar. (Lemos um excerto do diploma – «Os portugueses, de todos os colonizadores, são os que melhor e mais facilmente trazem ao seu domínio os povos africanos, pois que não temos o preconceito exagerado de separação das raças e tratamos o indígena com tolerância e bondade, levados apenas pelo nosso modo de ser» – enquanto as imagens mostram uma colónia de abelhas.)

De “Occupation”, com os seus arpejos fluentes, solta-se uma ótima intervenção do saxofonista, sempre empático com a voz de Serpa. Em “The Multi-Racialism Myth” é a vez de o piano de Virelles se destacar (as imagens da dureza do trabalho nas salinas são fortíssimas). “Free Labour” funda-se em motivos repetitivos e, na sua matriz mais exploratória, de “Beautiful Gardens” eleva-se a voz de Serpa num efeito hipnótico, com harpa e piano articulando dissonâncias. De pendor mais camerístico são “Mercy and Caprice” e “Absolute Confidence”, com os seus rigorosos contrapontos. Em “Civilizing Influence” às notas de filigrana do piano junta-se uma belíssima melodia desenhada por Turner.

“Queen Nzinga”, musicalmente uma improvisação livre, evoca a lendária soberana de Ndongo e Matamba e nela são nomeadas várias línguas africanas proibidas (o título real de Nzinga na língua kimbundu, Ngola, foi o nome utilizado pelos portugueses para denominar aquela região). No epílogo esperançoso, “Unity and Struggle”, Sara Serpa canta as palavras de Amílcar Cabral, símbolo de luta e mobilização.

Saibamos, todos, individualmente e enquanto país, como Sara mostrou saber, lidar com o nosso passado, por mais dolorosas que sejam as cicatrizes. Para jamais esquecermos.

  • Recognition: Music for a Silent Film

    Recognition: Music for a Silent Film (Biophilia)

    Sara Serpa

    Sara Serpa (voz, composição); Zeena Parkins (harpa); Mark Turner (saxofone tenor); David Virelles (piano)