Tundra

¡Golpe! & André Matos: “Tundra” (Robalo)

Robalo

António Branco

Na bela capa assinada por Maria Bouza (a partir de uma fotografia captada pelo trompetista Gonçalo Marques no aeroporto de Umeå, na Suécia) vemos várias pessoas a prepararem-se para subir a bordo de um avião (de que apenas descortinamos a asa direita) estacionado na pista gelada. Estamos em latitudes não muito distantes da tundra (termo que deriva da palavra finlandesa “tunturia”, que significa “planície sem árvores”), o bioma mais frio do planeta. Mal sabemos por esta altura que também nós estamos prestes a iniciar uma jornada sónica desafiante...

¡Golpe! é um duo formado por Marques e pelo baterista João Lopes Pereira, músicos de gerações diferentes que, em vários contextos, já demonstraram a química musical que os une. Ambos partilham uma certa maneira de pensar e fazer música, em que a preocupação com o som emerge antes de quaisquer construções musicais ulteriores.

“Tundra” é o segundo disco do projeto (e com edição da Robalo), o sucessor do também recomendável “Puzzle”, editado no ano passado, e no qual tiveram a companhia do pianista norte-americano Jacob Sacks. Agora é a vez de o guitarrista André Matos dar continuidade a uma colaboração próxima e que vem de trás (já tocaram como trio e integrados noutros grupos). Corroborando a visão dos outros dois (ele próprio é um cultor do “som”), Matos revela-se decisivo para o resultado final do que aqui se escuta, ao acrescentar todo um novo espetro de sons. Os três dão, em conjunto, passos em frente nos respetivos percursos pessoais, o que não é despiciendo.

Depois de várias sessões de trabalho totalmente improvisadas, sem estruturas pré-arquitetadas, o trio resolveu gravar deste modo, preservando a irrepetibilidade do momento. Em entrevista à jazz.pt, o trompetista assumiu que aprendeu nos últimos anos a «tocar a “partir do som”, a partir do timbre dos instrumentos e do som de um grupo». Estamos, assim, perante quatro peças urdidas a partir de elementos de natureza diversa, orgânicos e eletrónicos, que ora coalescem ora parecem distanciar-se, num itinerário sem outra bússola que não a criatividade e a atração pela exploração de sons e técnicas menos convencionais (abordagem que também pode desembocar em motivos e melodias, mais ou menos abstratas).

De atmosfera inquietante, como que prenunciadora da incerteza que estes tempos auguram, “Futuro” abre o disco com uma voz de criança (gravada num iPhone e reproduzida sem aviso prévio...), mote que espoleta a reação de todos, começando-se a discernir as notas claras do trompete, a bateria prenhe de detalhes e a guitarra delicada, pontuando com discrição. Da peça seguinte, “Lua”, ressalta uma longa intervenção do baterista que se vai densificando com a entrada das texturas cortesia de Matos e do trompete cristalino de Marques, que desenvolve uma linha melódica jamais previsível.

A peça-título, com duração superior a uma vintena de minutos, remete para uma vasta paisagem austera que lentamente vai adquirindo diferentes contornos e novas matizes. Matos estende o tapete para o trompetista explorar diferentes registos do seu instrumento, aqui sussurrados, ali mais rugosos, sempre com clareza e bom-gosto. Pereira revela-se superlativo na judiciosa utilização dos címbalos e demais componentes do seu “kit”. A peça final, “Andes”, de forte apelo sinestésico, funda-se na tensão latente gerada pela interação das várias camadas sonoras, numa notável gestão da contenção, provando que o todo é, afinal, superior à soma das partes.

Uma fascinante viagem sonora que enriquece quem nela embarque.

  • Tundra

    Tundra (Robalo)

    ¡Golpe! & André Matos

    Gonçalo Marques (trompete); João Lopes Pereira (bateria) + André Matos (guitarra elétrica)