João Almeida: “Solo Sessions *IIII” (Edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Na esteira de revolucionários do trompete como Peter Evans (seu professor, de resto), Nate Wooley e Axel Dorner, João Almeida tem reunidas neste álbum a solo as suas pesquisas solitárias no que respeita ao uso de técnicas extensivas, de exploração do timbre e de reformulação do típico fraseado do jazz (e da música improvisada “old school”, acrescente-se). Cada peça é uma situação, ora resolvida em dois ou três minutos, ora necessitando de mais tempo para todas as componentes se juntarem, com limite nos nove. Sem rodriguismos formais nem piruetas virtuosísticas, pelo caminho evitando também configurações de exercício ou um carácter demonstrativo, este trabalho pode parecer algo árido a uma primeira abordagem, mas contém o que de mais aventuroso alguma vez um trompetista fez em Portugal.

Os temas mais longos são os mais aprazíveis, talvez pelo modo como as suas narrativas são construídas apesar de toda a não-linearidade e da introdução de espaços para quebrar com quaisquer tentações de lógica discursiva. “Stuck” é um bom exemplo, num jogo de dinâmicas e silêncios muitíssimo bem gerido. Como o próprio título indica, “Train” é, por sua vez, como um filme para os ouvidos, mimetizando os sons e o movimento de um comboio. Ainda assim, é a mais curta faixa (pouco ultrapassa um minuto) que nos levanta da cadeira devido à sua rugosa e inquietante estranheza, “Membrane”.