Inner Dance

Diogo Vida: “Inner Dance” (Edição de autor)

Edição de autor

António Branco

Nos dois dias inaugurais de 2019, o pianista e compositor Diogo Vida fez uso das ferramentas “caseiras” de gravação e edição, e disponibilizou “online”, nesse mesmo dia 2, o seu primeiro registo a solo, “Piano Improvisations”. Como o título atesta de modo inequívoco, é constituído por peças completamente improvisadas, sem quaisquer estruturas pré-arquitetadas. Refutando a ideia de urgência e apodando o processo como absolutamente normal, o músico tentou então limitar-se ao primeiro “take” e a pós-produção, nada acrescentando, também por isso não se demorou.

Apesar de ser conhecida a sua preferência por tocar acompanhado, Vida apresenta, quinze meses depois, “Inner Dance”, no qual retoma o “modus operandi” do disco anterior (a menção “piano improvisations” passou para subtítulo), sem que tal tenha sido efetivamente pensado para acontecer num momento em que, obrigada ao confinamento, a vida de cada um de nós se transformou de repente numa espécie de dança interior. Este processo, confessa-nos o músico, «quando recai sobre a nossa própria música, exige um distanciamento que não é fácil, mas que considero essencial e, sobretudo, enriquecedor para o próprio músico».

Tudo continua a assentar na visão pessoal de uma das componentes da história do jazz que mais interessa e inspira o autor: o ato da improvisação livre e espontânea. «Acredito que neste processo de criação somos confrontados de uma forma totalmente diferente de outros contextos e situações musicais, e é surpreendente o resultado obtido e a forma como se revelam as coisas que não sabíamos que sabíamos», sublinha Vida. «Para além do óbvio valor documental, tem em si esse elemento especial que faz o jazz ser o que é, nas suas mil maneiras de existir».

O disco foi gravado no recolhimento de casa, no seu espaço de trabalho, e o resultado é um contraponto à música que escreve, pensada com vagar. Neste caso, formas e estruturas surgem livremente, num processo que lembra a escrita automática dos surrealistas ou apenas o dar azo a um gerador de música que não é completamente consciente, embora seja difícil estabelecer quais terão sido as decisões mais conscientes durante a improvisação. Lembrei-me de Xavier de Maistre, viajando à volta do seu quarto: «Não há nada mais atraente, em minha opinião, do que andar no encalço das próprias ideias, tal como o caçador persegue a caça, sem procurar manter um determinado percurso. Além disso, raramente percorro uma linha reta.»

Ao contrário do que acontecia no seu antecessor, em “Inner Dance” as peças improvisadas não têm título. Cinco partes, três das quais com cerca de 15 minutos de duração (as restantes são mais curtas), nas quais o pianista reitera as qualidades que lhe reconhecemos, não apenas enquanto dotado instrumentista, mas sobretudo como improvisador consequente. Mesmo neste contexto sem rede, Vida não deixa de se mostrar como um exímio cultor da melodia, que esculpe de forma oficinal e paciente, num pianismo luminoso, eminentemente tonal, mas permeável a outras dimensões sonoras. As peças parecem subdividir-se em diferentes secções, ao sabor das sinapses, escapando argutamente a lugares-comuns.

“Inner Dance” é uma jornada sonora que, com a sua crueza e as imperfeições inerentes, traz à tona a essência da grande música.

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    Inner Dance (Edição de autor)

    Diogo Vida

    Diogo Vida (piano)