André Fernandes Centauri: “Dianho” (Nischo)

Rui Eduardo Paes

Nos primeiros anos da adolescência, havias duas bandas que reconciliavam o meu simultâneo gosto pelo rock que ia descobrindo com os amigos (olá, Rui e Bebita, por onde andam vocês?) e pelo jazz que o meu pai me dava a ouvir. Blood, Sweat & Tears e os Chicago do início tinham reunidos nas mesmas músicas aquilo que eu mais gostava: guitarras em distorção e blocos compactos de instrumentos de sopro. Quando oiço os Centauri de André Fernandes lembro-me desses tempos e percebo que continuo a ser a mesma pessoa, passados todos estes anos. Na primeira faixa deste novo álbum fico, por isso, logo rendido: os saxofones de José Pedro Coelho e João Mortágua e a seis-cordas eléctrica de Fernandes seguem em “Maria Grancha” essa tradição e a ela voltam várias vezes ao longo deste “Dianho”. Chapa ganha, logo à partida. Os rasgos composicionais do guitarrista e líder fazem o resto, desde o jazzisticamente mais formalista “Homem das Sete Dentaduras” ao extravagante (no sentido de que nos leva por caminhos não adivinháveis momentos antes) “Velha da Égua Branca”, com passagem pelos blues de “vaudeville” rural trazidos por “Tardo”, peça que funciona como mediadora do conhecido com o inesperado.

Se essa é a fruição pessoal e intransmissível que tenho deste disco, há outra que vem intencionalmente preparada de origem por este grupo que é completado pelo contrabaixo de Francisco Brito e pela bateria de João Pereira: este novo trabalho de André Fernandes vai beber ao imaginário pagão que ainda sobrevive em algumas regiões do nosso país, e muito em especial o mirandês, celebrado, por exemplo, nos rituais de solstício do Inverno. Sobrevivem, pois, nesta música os demónios e as assombrações traquinas da ancestralidade portuguesa, mesmo que pouco mais de especificamente lusitano encontremos nestes temas (oiça-se, por exemplo, o bamboleante e divertido “Trasgo”). A derradeira oferta do CD, “Bicha-Serpe”, começa com uma melancolia que nos é bem familiar, mas transforma-se num hino com tudo o que os hinos têm de épico. Para todos os efeitos, o que é um ritual, desde sempre na nossa cultura celtibérica, senão um esconjuro?