João Pais Filipe: “Sun Oddly Quiet” (Lovers & Lollypops / Holuzam)

Rui Eduardo Paes

É disponibilizado no próximo dia 24 de Abril o segundo álbum a solo do baterista e percussionista (além de inventor e construtor de muitos dos seus instrumentos) João Pais Filipe, que conhecemos de projectos como Paisiel e HHY & The Macumbas, da primeira formação do grupo Fail Better! e de colaborações com Burnt Friedmann, entre outras, muitas, incursões. Em “Sun Oddly Quiet” voltamos a encontrá-lo no seu particular universo: uma música não-desenvolvimentista, feita da repetição de motivos rítmicos e melódicos, que vai beber a uma série de tipologias musicais sem se fixar em nenhuma delas. A música de transe de Marrocos e da África profunda, o gamelão do Bali, os “riffings” insistentes do krautrock e do funk, o minimalismo norte-americano, o techno, as músicas de dança electrónicas e o jazz devocional desde John Coltrane convivem em mantras de aparente confecção electroacústica que, depressa o percebemos, têm exclusiva geração na panóplia de peles e metais do músico do Porto.

Se Pais Filipe é conhecido pela forma como suspende o tempo em polirritmias cantantes cuja mínima falha de marcação bastaria para que tão intrincadas construções musicais desabassem, como se Jaki Liebezeit e Max Roach se unissem nas suas mãos e nos seus pés pela mediação de Fritz Hauser, algo mais fica neste álbum magnificamente exponenciado: a moldagem de harmónicos, “overtones”, choques de frequências e “drones” que tantos nos remetem para o Oriente ancestral como para a música por computador do presente experimentalismo europeu. Neste plano, é especialmente interessante verificar como harmonia e noise (o nome que se vai dando à estética do ruído) se conjugam, indefinindo as linhas de demarcação dos seus respectivos âmbitos. O que resulta é uma espécie de “ambient music” que só não é paisagística porque tem um carácter imersivo que imediatamente nos agarra e engole. Para ouvir às escuras e, idealmente, com auscultadores. O mundo lá fora desaparece, e tanto que precisamos desse escapismo nos dias que correm.